- Rosarinho, diz-me ela ao telefone, segui o teu conselho e...
- Magali, ó Magali, espera aí... SALVADOR TIRE JÁ O SAPATO DA BOCA! Desculpa, continua...
- Nem imaginas o que é que aconteceu...
- SEBASTIÃO LARGUE O COMANDO DA TELEVISÃO! SIMÃO NÃO EMPURRE O SANTIAGO! Continua, querida.
- E disse...
- Magali, espera! MARIA AQUI QUEM RALHA SOU EU, SANTIAGO LARGUE JÁ ISSO. Magali, eu depois ligo-te, ok?
Babysitting e vida própria não combinam...
Planear as férias dá algumas dores de cabeça. Isto, porque me apetece fazer tudo, estar no norte e no sul na mesma semana, ir acampar, ir para a praia, ir ter com A, B e C, estar com a família, perceber se vou trabalhar ou não durante o mês de agosto.
E enquanto tento desesperadamente organizar a minha vida como se o mundo acabasse amanhã, o A., que começa as frases de aconselhamento com "eu não sei, mas não achas que...", mostra logo que estou a preocupar-me com coisas que facilmente se resolvem.
Tem piada como actuamos de maneira diferente perante pessoas e problemas diversos. Umas vezes complicamos, outras somos nós que explica à outra pessoa que está a complicar. E esse equilíbrio é importantíssimo nas relações humanas. Há sempre quem nos mostre o outro lado da questão, onde está o bom senso que por momentos parecemos perder quando a visão fica negra com tantos problemazinhos que parecem surgir.
Férias? Ainda não sei... Mas sei que hoje vou passear e apanhar ar. Amanhã? Logo se vê.
Um destes dias o Linhas Incertas entra de férias durante quinze dias. Até lá vou escrevendo ao sabor das incertezas da vida.
Murphy e eu no carro.
- E é incrível como ligam a estas horas... Blá, blá, blá...
Começa o ritual. Abre a janela, liga o rádio, mexe no cinto de segurança.
- E quando é que vais para o algarve?
Fecha a janela, desliga o rádio, mexe no cinto.
Eu observo atentamente o ritual desta minha amiga.
Abre a janela, liga o rádio, mexe no cinto.
Fecha a janela, desliga o rádio, mexe no cinto.
No meio disto tudo, fala, conduz e ainda consegue zangar-se (pouco, é verdade) com alguns condutores menos atentos.
Abre a janela, liga o rádio, mexe no cinto.
É impressionante como ganhamos hábitos e manias sem sabermos bem porquê. Eu, desde pequenina que adormeço agarrada ao lençol que estiver na cama, enrolando-o nas pontas dos dedos.
Fecha a janela, desliga o rádio, mexe no cinto.
A avó fechava as janelas todas mal o sol se começasse a pôr. Foi uma mania que herdei, odeio ver as portadas do Exílio abertas com escuro lá fora.
Quando jogo monopólio tenho que ter notas de todos os tipos, é uma troca frenética, entre o banco e eu, durante todo o jogo.
A Pepa odeia ter a porta do quarto fechada quando já está deitada.
Abre a janela, liga o rádio, mexe no cinto.
O Kiko Badamico não gosta de ter os calções de banho molhados.
Fecha a janela, desliga o rádio, mexe no cinto.
Contem lá, senhores leitores, que mais manias conhecem... Confesso ter alguma curiosidade.
A vida escreve direito por linhas tortas. Fecham-se portas, abrem-se janelas e, quando menos esperamos, o caminho que escolhemos já nos endireitou a vida outra vez. Eu escrevo por linhas incertas.
Chego à conclusão que tenho muitas mais certezas na escrita do que no dia-a-dia. A escrita estende-se sozinha, escreve-se por si própria. Há dias que me sinto um mero instrumento. Noutros, escrevo por vontade própria, sobre marcas que assimilei, minhas ou não.
E enquanto cresço na literatura e na vida, com novas crenças, gostos, sinto a base daquilo que sou cada vez mais forte. A família, os valores, os amigos.
A vida, naquilo que fomos, somos e seremos, também cresce. Há dias em que sentimos intimamente esse crescer.
Pronto. Uma escritora também precisa de descansar, não é? Não é só contar coisas, contar coisas, contar coisas.
Tenho andado a pensar muito e, normalmente, enquanto penso acerca da ecscrita não escrevo. É assim como... um arquitecto quando faz um projecto não começa logo a construir o edifício.
Têm sido noites calmas, reviver memórias da escola com a Ana, a Claudia, o Gonçalo, a Teresa e a Inês, a trabalhar fora de Portugal. Queixam-se de que falo pouco deles aqui no blogue. Não é por mal... As sensações mais intensas ficam sempre por escrever. E vocês são uma parte tão importante do meu crescimento que é difícil pôr por palavras cada noite que estamos juntos.
Posso, sim, contar como é que a Ana, a Inês e eu chegámos atrasadas ao último jantar. Até podía ser por nos terem batido no carro... Mas foi mesmo porque a senhora era, assim tipo, tontinha?! Depois de no meio de uma curva ter parado o carro e feito marcha-atrás, sem olhar pelo espelho, de ter batido no carro da irmã da Inês, da Inês ter apitado, ainda nos disse:
- A senhora desculpe, posso dar-lhe um conselho? Apite sempre...
Ficámos tão aparvalhadas que nem respondemos: E que tal olhar pelo espelho retrovisor? E não parar no meio de curvas? Hum?
A Feiticeira de Oz licenciou-se, a Morgana está quase a voltar...
E assim têm sido os entretantos da vida, alguns, outros não são mesmo para contar. São para viver minutinho a minutinho...
Na rua, comigo. Todo ele muito loiro, de trela azul. Vê outro cão:
- Seu vira-lata, sai do meu bairro! Grande ordinário! És feio! Vou fazer xixi em todos os sítios onde já tenhas passado! A minha dona é mais gira que a tua! (tudo isto em ladrar)
Eu puxo a trela, levo-o para longe.
- Se te volto a apanhar levas uma dentada! A tua sorte é que a minha dona me está a puxar! (tudo isto em ladrar)
Deixa de ver o cão, espeta o rabo e se a vida dele fôsse um filme a banda sonora seria:
I've got the power! tan tan tan tan tanana tan tan tan.
Pego num pé do kiko.
- Não cheira mal, pois não, zarinho?
Dou um beijinho no pé dele.
- Não, cheira bem!
- 'Tá bem lavadinho, não 'tá?
- Está muito lavadinho!
- Kiko lavou na piscina.
Um Francisco amoroso, de dois anos. Primeiro babysitting.
- Francisco, sabes como é que eu me chamo?
- Xei...
- Como é que é?
- Meninaaaaaaaaaaaaa!
Vi ontem o Dinis. Já não o via há quase três semanas. Já tem quase quase dois meses.
Olhos claros, cara redonda, parecido com os manos. Faço-lhe festinhas na barriga. Sorri.
- Ó D.! (berro toda contente) Ele já se ri!
- Pois já e até brinca, queres ver? Faz uhh, faz uhhh...
- uhhhh...
Sou a babysitter-tia-prima mais babada do mundo...
Começa dias antes, levo rolo de carne, rissóis, croquetes, boa? Pergunta sempre a tia G., entusiasmada. A I., a Pepa e eu falamos sobre a roupa a levar.
Uns vão primeiro, outros depois, dependendo de quem se despachou a tempo a fazer as malas e a sair do emprego. O dia da chegada tem sempre direito a ida ao supermercado. Mas nem custa nada, somos muitos, levamos uma lista e num instante temos as compras feitas. A vontade de ir para a praia já é mais que muita.
Fazer sanduiches, vestir fatos de banho, ir de carro para a praia, é preciso tirar o barco do tejadilho do carro do tio T..
Praia, marcar toldo, já está marcado, procurá-lo. Finalmente estamos verdadeiramente na praia da Luz. Calma, tranquila, cheia de caras conhecidas e no mimo dos tios. Outra sanduiche? Outro gelado? Outro banho? Têm dinheiro? Comeram o suficiente?
E uma vida calma, feita de momentos bonitos e simples, ajuda sempre a carregar energias do mundo.
Hoje fazem anos a Tia Graça e a Calolas!
Parabéns!
Quando dei aulas a militares aconteceram inúmeras coisas que agora me dão vontade de rir. Uma delas foi ter pedido a um Sr. Major que me fôsse tirar fotocópias. Notei que os cabos e soldados se tinham rido, mas para dizer a verdade toda nem liguei.
- Sra Dra... - diz um Sr. Alferes quando íamos almoçar - se calhar não reparou, mas sabe porque é que o soldados e cabos se começaram a rir quando pediu ao Major para tirar fotocópias?
Ai, Ai...
- Não (ar descontraído). Porquê?
- Porque quem tira fotocópias são sempre as patentes mais baixas...
Socorro!
- Sabe, Sr Alferes, na minha aula são todos alunos.
Não estou a acreditar.
Revi o momento na minha cabeça e lembrei-me que até tinha pedido ao senhor, com idade para ser meu pai, para se voltar a sentar e que esperasse que lho voltasse a pedir porque os senhores que tiram as fotocópias chegavam sempre atrasados.
- Senhor Major...
- Diga, Sra Dra.
- Explicaram-me que não é suposto pedir às patentes mais altas para tirarem fotocópias. Confesso que não sabia. Mas como são todos alunos e precisava de alguém responsável...
- Ó Sra Dra! Não se preocupe! Se não tivesse ido eu nem sequer tinha as fotocópias hoje!
Ufa...
No fim da semana já sabia reconhecer as patentes todas e não pedi a mais ninguém para ir tirar fotocópias...
Já faz um mês que a avó se despediu. Um mês sem aquele sorriso malandro, sem os abraços apertadinhos, sem a certeza de a encontrar sentada no sofá verde da sala. Um mês sem ouvir logo de manhã: "Filha, estás tão bonita!", sem ouvir rimas, orações e cantigas com aquela entoação que só a avó sabia dar.
Ainda custa, mas a pouco e pouco vamo-nos lembrando de todas as coisas boas que vivemos juntos e a presença ausente da avó já faz parte das nossas vidas.
Já faz um mês que a avó é uma estrelinha, como diria o Kiko Badamico. E as saudades são do tamanho do universo.
Hoje faz anos a prima I.!
Muitos parabéns, querida prima! Hoje vou lembrar-me ainda mais dos nossos passeios a cavalo, das nossas noites mal dormidas na praia da Luz e na quinta, nas nossas aventuras nas compras (a gastar dinheiro e mais dinheiro), dos nossos almoços, enfim!
Muitos beijinhos e um dia bem passado.
Hoje o dia cheira a Alfazema.
Já cá tinha vindo a casa, mas não tinha perguntado.
- Zarinho! A bivó?
Sinto as lágrimas a virem aos olhos.
Sento-o ao meu colo.
- Está na quinta? - volta a perguntar.
- Olha, Kiko, quando as pessoas ficam muito crescidas e velhinhas nós deixamos de as ver com os olhos. Tornam-se estrelinhas.
- Puquê?
- Porque é assim... Agora, quando olhas para o céu e vês as estrelinhas lembras-te da bivó.
- O Kiko também vai ser uma estrelinha?
- Claro, daqui a muito, muito, muito tempo.
- E fica ao pé da bivó?
- Fica. E a bivó continua a gostar muito de nós todos, mesmo que não a consigamos ver. O Kiko também gosta muito da bivó, não é?
- É!
Salta do meu colo e vai brincar com um carrinho. Adoro esta forma simples das crianças sentirem a vida. Eu levantei-me e fui limpar as lágrimas.
O Kiko canta muitas vezes a música:
Brilha, brilha lá no céu
A estrelinha que nasceu.
Agora, a canção, tem uma ternurinha especial.
Abro a porta do infantário, entro devagarinho. Há poucos meninos no recreio, não vejo o meu Kiko.
Procuro caras conhecidas de meninos da sala dele. Estão em fila dentro do edifício. E no momento em que olho para uma mancha minúscula que está a correr em direcção a mim de mãozinhas estendidas, ajoelho-me para receber um dos melhores abraços do mundo.
- Zarinho!
Não sei como é que ele faz isto, vê-me sempre antes de eu dar com ele. Passeia-se pela escola orgulhoso, é a minha pima Zarinho.
- Vamos os dois passear? Queres ir ao Parque Infantil?
- Sim! Chupa-chupa? - diz ao mesmo tempo que olha para mim com ar de malandro.
- Sim, compramos um chupa-chupa pelo caminho.
E lá vamos nós, neste ritual tão nosso de passear a cantar, de mão dada ou ao colo, abraçadinho a mim ou à padinha, a fralda de que tanto gosta.
- Tantas fores! As pantinhas! (tantas flores, as plantinhas!)
Chegamos ao Parque Infantil. Não há mais meninos, o escorrega e baloiços são todos para ele. O objectivo principal tem sido subir para o escorrega maior, de meninos crescidos. É difícil, é preciso escalar umas barras que estão muito alto. Põe a mão no escorrega, não tá quente!, sobe as escadinhas para o escorrega pequeno, chama-me, vou atrás dele. Sento-me no escorrega.
- Ahhhhhhh! A Zarinho não cabe!
- Safado! A Zarinho não quê?
Empurra-me, empurrou, kiko empurrou!, risos e gritinhos.
Escorrega grande. Ensino-lhe: pões um pé, outro pé, as duas mãos e vais subindo devagar. Já lho ensinei imensas vezes, mas até hoje ele não tinha nem força nem tamanho para o fazer.
- Zarinho! Kiko conseguiu sozinho!
- Que orgulho! Quer dizer que estás mais crescido!
Quescido, saltinhos, abracinhos! Temos que ir embora, a avó está à espera. Vê um menino de oito anos a subir para o escorrega pelo outro lado, uma rampa inclinada que tem uma corda para ajudar a subir. Fica parado a olhar. Menino subiu pelo oto lado...
Pronto, nos próximos meses já temos outro objectivo a atingir no Parque Infantil...
Perguntam os leitores: o que é terá dado à rapariga para escrever tantos post's?
Hoje tenho imensas coisas para contar.
Sexta-feira as bruxas não-exiladas foram a outra festa na praia. Festa giríssima, animada, bem conseguida. Muito boa companhia, toda a gente sorridente, bruxos novos, bruxos antigos, amigos de bruxos, Y's, tudo à mistura.
A Madame Min voltou finalmente do Colégio Europa, regresso muito esperado. Só estive com ela de raspão, nem deu para pôr a conversa em dia com esta bruxinha tão especial.
Connosco esteve também a já adoptada bruxa Exótica, simpática, divertida e especial como só ela sabe ser.
E é tão bom ver o grupinho das bruxinhas crescer, mudar e adaptar-se às novas exigências da vida.
Fizeram falta a Morgana e a Magali. Muita.
Magali se ha ido a Madrid. Amiga: te echamos de menos... Besos gordos
Ele estendeu-lhe a mão, tranquilo e seguro, como se toda a vida tivesse esperado por esse momento.
- Toma. É tua.
Calaram-se as vozes, os cantos, as àguas. Calaram-se.
E ela, sem perceber aquela entrega tão súbdita, perguntou-lhe inocentemente:
- Minha? A tua mão toda?
Ele, num pestanejar breve, sorriu e cantou sem se apressar.
- Foi escrito nos céus que nos guiam que te estava destinado a encontrar. E agora que te vi sorrir, tocar, abraçar soube que eras tu. Toma. Toma-me. Sou teu.
Ela tomou-lhe a mão, que encaixou na perfeição, e partiram rumo ao infinito já escrito que os esperava.
Estavam as três nas escadas do metro. As duas raparigas, de pé, não tinham mais de dezasseis anos. Vestiam roupa escura e quente, pele e cabelo moreno. A velhinha estava sentada, tinha uma caixa onde alguns deixavam moedas de cobre.
As meninas abriram a mão, olharam para a velhinha e deixaram algumas das moedas que também a elas lhes tinham dado. Não, vocês também precisam. Não falavam português. Encolheram os ombros e sorriram, como quem diz: Há quem seja ainda mais vulnerável e precise mais do que nós.
Dar é partilhar o que se tem. Mesmo que seja pouco.