Pronto, assumo que o dia de hoje é dedicado a Y's.
Uma das meninas das toalhas lá do ginásio tem uma paixão platónica por um P.T. (são os treinadores).
Disse-me assim uma vez:
(pronúncia brasileira)- Pôxa, você chocou com o P.T. mais lindo deste ginásio! Deste ginásio, não! De todos os ginásios, de todo o mundo!
Hoje veio a correr ter comigo agarrada ao braço:
- Ele me tocou, ele me tocou! Chocou comigo e me tocou. Nunca mais lavo o braço!
Entre risos e comentários tipo olha que depois cheiras mal, não consegui deixar passar este acontecimento em branco.
Outra frase memorável que me faz sempre sorrir é:
(dita entre suspiros)- Ele respira e eu acho piada!
Esta é absolutamente deliciosa...
A Annie Hall escreveu uma vez que os homens tinham sempre que cheirar bem, ser charmosos, etc., etc.
Meninas, andei a pensar sobre isto durante imenso tempo... Eis as conclusões a que cheguei.
Um Y, para ser especial, DEVE:
(em geral)
ser inteligente;
ser romântico;
fazer surpresas (sem serem despropositadas);
cheirar bem;
ser simpático com as amigas da X;
ter um sorriso bonito;
ser dedicado;
não ser chato;
saber cozinhar;
gostar do que a X cozinha;
dizer que somos bonitas;
abrir as portas dos carros;
deixar-nos passar à frente;
ouvir o que temos para contar;
fingir que gosta de ir às compras;
reparar quando cortamos o cabelo;
cuidar de si (fazer desporto);
(em particular)
escrever bilhetes para nos conquistar;
usar t-shirts verdes;
levar-nos a passear a jardins;
telefonar quando não estamos à espera;
enviar mensagens queridas;
usar camisas brancas ou às risquinhas;
respirar (gargalhadas, esta é para uma X em especial);
dançar bem;
gostar de estar connosco;
achar que a X é a pessoa mais divertida do mundo;
voltar de viagem uns dias mais cedo para nos surpreender;
enviar rosas para casa no dia de anos da X;
gostar de juntar os amigos dele às amigas dela;
E NÃO DEVE:
usar camisas do Tin Tin (mais gargalhadas);
ter outra namorada;
e mais umas quantas que nem me atrevo a escrever.
Chego a casa tardíssimo (nem me atrevo a dizer horas). Entro no prédio devagarinho, descalço-me no elevador. Abro a porta, está o cão à minha espera. Faz uma festa como se não me visse há uma semana. Ó dona! Agora já estamos todos cá em casa! Nem dá tempo para lhe dar uma festinha. Vai para a caminha dele dormir descansado.
Estou a dormir. Ferrada. Acordo com passinhos no meu quarto.
Tic, tic, tic. Sinto uma lambidela na minha mão, que está estendida para fora de cama. Abro os olhos. São seis da manhã e o cão está a fazer-me uma declaração de amor. Gosto de ti, dona!
Vira as costas e vai-se embora.
Sorrio.
Quem não tem um cão, não sabe o que perde.
Quando era pequenina (ok, mais pequenina) o professor de Artes Plásticas do colégio dizia sempre que alguém fazia uma pergunta sem sentido:
- Perguntas tolas merecem respostas tolas, para o menino/menina (e dizia o nome da pessoa)!
Lá no ginásio são feitas as perguntas mais tolas que já ouvi em toda a vida.
Telefonam para a recepção, a um sábado:
- A que temperatura é que está a piscina?
- Tem o ar condicionado ligado?
A mim, com 4 tipos de sumo diferentes à frente:
- Está a dar meias?
- Bebe-se em que altura do dia?
Como é que eu consigo não responder disparates, a maior parte das vezes, é um verdadeiro mistério.
A noite começou cedo, com cada bruxinha em sua festa, mas com a promessa de encontro mais tarde, na praia.
A Feiticeira de Oz e eu fomos as primeiras a chegar, vindas da festa do meu muito amigo Bernas. Encontrámos Y's amigos de amigos, conversa em dia.
Perfumes, gente, pouca roupa, pouco espaço. Mas a praia que se estende mesmo em frente ao bar, compensa o barulho e a multidão que insiste em não arredar pé.
Bebidas, bebidas na roupa à conta de empurrões, boa música, boa companhia.
E, no meio dos cheiros, das pessoas e de todo um tempo que parecia ali passar, o minuto parou. Entre aquela gente toda, no que parece ser não mais que mera futilidade vivida em conjunto, pensei a importância que tem ver pessoas diferentes, conversar, estar... A importância deste tipo de comunicação, uma comunicação com o espaço, com o mundo e até com o meu mundo interior, que oiço melhor quando estou assim, serena.
O facto de estar em frente à praia, rodeada de amigas e amigos traz uma especial tranquilidade e segurança. Poder ser-se plenamente é difícil nos dias que correm. E a mim, que não sou especialmente sociável com pessoas que não conheço, que não gosto que me empurrem ou de me sentir apertada e pressionada, bastou-me ter ali as minhas amigas que sabem o que sou por dentro e por fora. Senti-me bem entre o mar e a multidão. Senti-me, tranquilamente, eu.
Há já tempo que não me era.
Foi bom.
A casa do Bernas e da Mary lembra-me sempre crescer. Lembra-me dias bem passados, banhos de mangueira no jardim, lembra-me a Praia Grande.
E estar com tantos amigos com quem cresci, que fazem tanto parte daquilo que fui e sou, deixa-me completa.
A garagem com os matraquilhos, a sala onde estão os jogos de computador e o alpendre onde se fazem os churrascos são sempre os locais mais desejados. Há coisas que não mudam.
Estavam calminhos, cansados por terem visto o jogo de futebol até tarde.
- Rosarinho e os golos! Os golos! - diz-me o Simão.
- Rosarinho, já viste? Temos uma bandeira de Portugal na janela do nosso quarto! - diz o Sebastião.
Contam imensas coisas, que a escola já acabou, que tiveram boas notas, que chegaram tarde à escola, que têm brinquedos novos. Correm à minha volta, saltam, falam rápido para não se esquecerem do que iam dizer. Pego no Salvador, é o único que ainda não jantou.
O Santiago não me perde de vista. Seguinho, chuate!, que significa: Rosarinho, dá-me um gelado de chocolate. Pelo que percebi já vai para o terceiro, explico que faz mal à barriga e ele nem se importa, pega num brinquedo e vai brincar. O Salvador não quer jantar, cospe a sopa, berra, levo-o para o jardim, dou-lhe um tambor, lá come a sopa com carninha, vamos brincar com os manos.
O Simão e o Sebastião já estão a ver desenhos-animados, uns de futebol. O Sebastião tem o dedo na boca, normalmente quer dizer que está cheio de sono. Sento-me no chão com os meus meninos, o Santiago senta-se ao meu colo, levanta-se, o Salvador percorre a sala a gatinhar, puxa os pés aos irmãos, os cabelos e tudo que possa causar algum tipo de reacção. O Sebastião tem o pijama mal vestido, senta-se ao meu colo, bem encostadinho.
- Xai! É minha! - diz o Santiago. Começo a rir-me, babada, como não podia deixar de ser. Beijinho ao Sebastião, volta para o sofá. Quando começam a ficar crescidos são raros os momentos de mimo. Aproveito quando estão mais meiguinhos para pôr beijinhos e festinhas em dia.
O Santiago junta-se ao Salvador na corrida a gatinhar pela sala. Chocam com os sofás, risos, chocam comigo, festinhas e mais risos, cuidado, chocam um com o outro. Choro e sangue a sair da boca do Santiago. Tento manter a calma, o Salvador está bem, pego no Santiago, casa-de-banho, àgua, deixe ver onde é o dói dói. Ele está assustadíssimo, chora e eu não consigo ver nada. Finalmente, com ele deitado no sofá, vejo a ferida. É pequena, tem a marca dos dentinhos dele e já parou de sangrar. Pomos bucagel, arde um bocadinho, faz má cara. Já passou. Eu é que não ganho para o susto, estavam mesmo ao pé de mim.
O Santiago senta-se ao meu colo, a calma volta a reinar.
- Hoje é sexta-feira, amanhã não há escola! Podemos ir para a cama mais tarde?
- Só se se portarem bem.
(...)
- Estamos a portar-nos bem? - pergunta o Simão com os olhos muito abertos.
O tempo passa num instante, vou deitar os dois mais novos. Canções, mudar fraldas, festinhas, mais bucagel e beijinhos. Não houve birras do Salvador.
Quando vou buscar o Simão e o Sebastião começa um episódio do Verdocas.
- Assim que acabar, cama!
Sento-me entre os dois, lá vejo o Verdocas. Estão cansados, nem pedem para ficar mais tempo. Lavar dentes, fazer chichi, vão para as camas sozinhos. Beijinhos, festinhas, ajeitar lençóis.
Silêncio.
Televisão, mensagens de telemóvel, ir tapar os rapazes. Televisão, telemóvel, apagar as luzes do quarto dos brinquedos (odeiam adormecer às escuras), puxar lençóis para cima.
Silêncio.
Chegam os pais. Conversa, beijinhos, casa.
Silêncio.
Disseste assim:
- Encontrei-o no Bairro e aproveitei para lhe dizer tudo o que nunca tinha dito.
- Mas assim? À noite? - perguntei eu.
- Perguntei-lhe porque é que nunca tinha assumido nada comigo e ele disse que tinha passado por uma fase estúpida. Disse-me que tinha gostado muito de mim, mas que na altura tinha outras prioridades. Depois de ele me ter dito isto tudo eu senti-me aliviada. Mas fiquei tão triste... Gostei tanto dele. Disse-lhe que ele nunca iria saber o quanto eu tinha gostado dele. Gostei tanto dele.
Pensei tanto sobre isto, querida amiga. Às vezes parece que o cupido nos troca as voltas e o nosso mundo anda às avessas. Este teu Y agora telefona imensas vezes para fazerem programas juntos. Agora que tu já tens a tua vida organizada e o lugar que ele poderia ocupar preenchido. Lembrei-me de outra amiga minha que tem um apaixonado por quem não se apaixonou. Amiga essa que se perdeu de amores por outro Y que por sua vez gosta de outra X.
Tenho a certeza que nós, mulheres, gostamos de fomentar confusões na nossa vida amorosa. Ou porque as relações estão mal definidas e não se percebe bem a intenção do outro, ou porque há problemas de comunicação ou, simplesmente, porque se está em fases diferentes da vida e se procura outro tipo de experiências. No meio disto tudo, muitas vezes, perde-se toda a capacidade de bom senso e de avaliação da situação e as coisas complicam-se.
É um facto que, nesta idade em que não somos nem crescidos nem miúdos, temos também uma bagagem emocional que pode ser perigosa, manhas, manias e tudo o mais que fomos juntando pelo caminho. Mas também somos mais adultos, temos outras preocupações e prioridades.
Ninguém me tira da cabeça que gostamos de joguinhos. De perder, de ganhar. De um jogo idiota que muitas vezes quem perde são os dois. Mas no meio da situação isso não importa nada... O pior é o rescaldo.
E quando olhamos à volta e vemos cada vez mais gente disparatada (como outro que se esqueceu de dizer que tinha namorada, ou outro que precisava de mais tempo para estudar, ou outro que desaparece sem deixar rasto) temos tendência a ser assim também. Mas não somos.
Isto para te dizer que te acho bem, agora sem ele. Mas que também sei que ele é o teu bocadinho que nunca o chegou a ser. E até que tu percebas que ainda que ele o seja, cada um de nós tem sempre alguém assim, que mexe connosco de forma diferente, que é mais do que um amigo mas que por uma razão ou por outra não funciona, não vais conseguir andar com a tua vida. Ele é o teu bocadinho incompleto. E é incompleto porque nunca te conseguirá completar. E tu, querida amiga, mereces muito mais.
Ainda que tenha escrito estas palavras para uma amiga em especial, apercebi-me de que há outras quantas a quem estas palavras se podem aplicar... Numa fase ou outra da nossa vida.
E estas palavras tão fáceis de escrever, são bem mais difíceis de viver à letra. Se as mágoas ficassem marcadas como as letras no papel, a história era outra. As nossas marcas são mais como o próprio papel. Ardem, mas desaparecem. Antes assim?
Estava eu sossegada a trabalhar lá no ginásio, quando um senhor de 60 anos fez o seguinte comentário:
- Levo um destes sumos de cereais a ver se os meus olhos ficam mais bonitos.
... (Então é melhor levar os sumos todos.)
- A ver se engato umas meninas mais novas.
... (Está cá com uma sorte...)
- Tipo, assim da sua idade.
(sorriso amarelíssimo).
Tive a perfeita noção de que fiz o sorriso educado número quatro, amarelo mas ainda com um esgar de boa educação. Se lá estivesse a Bruxa Morgana tinha dito imediatamente:
- Rosa! Não sejas antipática!
E eu fico sempre a olhar para ela com um ar surpreendido.
- Mas eu até sorri...
Pois é, há vários tipos de sorriso. Sorriso espontâneo, sorriso amarelo, sorriso rasgado, sorriso cínico, simpático, educado, tímido, de cerimória e o sorriso para a fotografia (segundo a I. cada vez que vejo uma máquina fotográfica ligo o sorriso automático, o que significa que fico sempre igual...). E ainda, em cada um dos sorrisos vários níveis de interpretação.
Eu confesso ter pouca paciência para gente parva, o que significa que cada vez que vamos todas sair à noite oiço sempre o Rosa não sejas antipática. Mas eu até nem acho que seja antipática... Sou assim... expressiva! E tenho uma boa dose de personalidade, à qual muita gente chama mau feitio.
E tudo isto a propósito de sorrisos.
Ah! Mas as bruxas também têm sorrisos amarelos, principalmente as Bruxas Má e Morgana e vê-las tentar ser simpáticas com o sorriso número 4 na cara é de chorar a rir.
Morgana, controlei-me e mudei do sorriso educado número 4 para o número 3, assim que me lembrei que era paga para ser simpática e educada. E lembrei-me das tuas palavras que ecoam na minha cabeça cada vez que fico de trombas.
- Então, já conseguiram dar mais de três voltas debaixo de água à piscina? - pergunta o Diogo, mal chega ao Exílio.
- Não, mas o Paulo e o Nuno conseguem atravessá-la, a andar de um lado ao outro e debaixo de água na parte mais funda!
Apresento-vos os Jogos Sem Fronteiras subaquáticos, todos os fins-de-semana na piscina do Exílio.
Tudo começou com inúmeras tentativas de destruição de umas cadeiras insufláveis que, realmente, resistiram pouco tempo. Isto, porque os meus primos descobriram que havia um buraco entre o encosto das costas e a parte de nos sentarmos. Atiravam-se da pedra para dentro de água passando pelo espaço mínimo existente entre as duas partes das cadeiras... Com estas bóias também houve outro concurso que consistia na difícil tarefa de nos atirarmos das margens para cima delas. Uma aventura complicada que envolvia muito equilíbrio. É de estranhar que nunca mais se tenham comprado colchões insufláveis para a piscina, não é?
Agora a história é outra. Depois de pranchas do Kiko, braçadeiras, bolas de plásticos (que atiramos uns aos outros) e tentar ficar sentado no chão da parte funda, o objectivo é ver quem é que consegue ficar inconsciente mais depressa.
- Ihhhhhhh! O Diogo conseguiu ficar 2 minutos e não-sei-o-quê debaixo de água e eu só fiquei 17 segundos... - diz o Miguel preocupado.
Pois, o Diogo também conseguiu ir de um lado ao outro da piscina a fazer o pino... Eu é que ainda não consegui perceber bem qual é o objectivo, mas até o Tio Tó já entra no concurso do deixa-cá-ver-quanto-tempo-aguento-sem-respirar.
Atenção: os meus primos têm todos mais de 30 anos, alguns são pais de filhos mas nem isso os pára, passam horas na piscina a ver quem é que consegue inventar o desafio seguinte.
No meio disto tudo, o Kiko descobriu que tem pé na parte mais baixa e passa horas aos saltinhos e a mergulhar, sempre a berrar: Chocapic, chocapic!
Estou para ver o jogo que os meus primos vão inventar no próximo fim-de-semana. É só deixá-los mais de 5 minutos dentro da piscina e lá começa uma nova edição dos Jogos Sem Fronteiras no Exílio.
Por acaso, F. Crescido, tinha mesmo pensado escrever outra coisa. Vinha no caminho até casa a lembrar-me das palavras sábias de uma amiga minha de oito anos.
Estávamos a Marta, a Madalena e eu a conversar no quarto delas, mesmo antes de eu dar beijinhos e apagar as luzes.
- Há imensos meninos da minha escola que já não têm avós. - disse a Marta, numa tentativa de nos consolar às três.
Uma das avós delas morreu há dois anos.
Olha para mim. Demora algum tempo até falar.
- Rosarinho, tu tens imensa sorte...
Como quem diz: a tua avó só morreu contigo crescida.
Até me comovi.
Chego a casa, tenho que ir escrever no blogue.
Entro na salinha do computador, já está ligado e a página do Linhas Incertas aberta. Sabem que ainda não tive tempo para escrever, que já leram todos os "post's" publicados e, ainda assim, passar pelo blogue faz parte do ritual das coisas a fazer pela manhã.
Sorrio. Adoro a maneira silenciosa de como cá em casa estimam aquilo que escrevo.
Oiço ao longe:
- Onde é que vais almoçar?
- Vou ali comer um bitoque.
Bitoque, bitoque, bitoque, bitoque.
Pego no telefone (são onze da manhã):
- Paula... Olá! O que é o almoço?
Bitoque, bitoque, bitoque, bitoque.
- Filetes. Porquê?
- Não há bifes? Apetecia-me um bitoque.
- Há hamburgueres...
- Fazes batatas fritas e ovos estrelados?
- Faço...
- Até já!
Hamburguer, hamburguer, hamburguer, hamburguer.
Ai, não há Paula como esta!
Cá está, como prometido à Maga Patalógica, à Pininha, à I. e ao F. Crescido.
Alexandra
A vida corre-nos entre os dedos como gotas de água. Aquelas que conseguimos reter ficam-nos na memória como o frio que sentimos nas mãos que estão molhadas. São as marcas que não marcam, que ficam cá dentro escondidas. Sei que sou o que sempre fui. Sou a menina, a adolescente e a mulher. Sou todas em mim. Sou a flor que bebe a água, sou a terra que alimenta, sou o sol que nada espera. Sou a tia, sou a mãe, sou tantas, tantas que só sei ser eu.
Voltei hoje à minha casa de menina, onde o tempo era eterno e se apanhava com as mãos. Parava quando lhe pedíamos e os dias duravam mais do que as semanas. O Fundão está mudado, mas o espaço é o mesmo. O espaço onde tudo é possível, a um abraço do tempo.
Naqueles dias as horas tinham vida e nos meus sonhos de menina eu pedia-lhes que não mudassem nunca aqueles momentos que vivia. Gostava dos verões, daqueles em que a roupa se colava ao corpo e gostava do calor que me deixava afogueada só de subir as escadas lá de casa. Gostava do cheiro a lenha e a massa do pão. Gostava de não ter escola, de poder brincar todo o dia. Gostava dos meus vestidos, das tartes da Marcelina quando me esgueirava para a cozinha para lhe pedir atenção.
Os meus pais ficavam no Lobito, a trabalhar, mas depois daquele verão já me tinham dito que a minha vida ia mudar. A minha mãe esperava outro filho depois de durante sete anos eu ter sido filha única.
O meu avô costumava dizer que eu tinha nome de rainha. Alexandra. Cheirava a cachimbo e a rebuçados de mentol, o meu avô. Gostava de escrever e de me ter ao colo. Cantava-me músicas esquisitas, como eu dizia, numa língua diferente que se chamava francês. Lia para mim quando nas noites sem lua eu tinha medo de ficar sozinha. As noites sem lua eram escuras, sem vida. Deixava-me não comer a sopa e deitar-me mais tarde nessas noites em que a lua não aparecia. Deixou-me comigo já crescida, anos antes do retorno definitivo a Portugal.
Foi nesse ano que conheci a Carminho. Era linda, a minha amiga. Olhos azuis, cabelo trigo, sorriso franco, sincero e amigo. Vivia longe como eu, mas passava o verão com os avós, na casa em frente da minha. Quisemos ser amigas uma da outra mal nos conhecemos.
A Carmo tinha uma boneca como eu nunca tinha visto. Tinha a pele lisa e clara, tinha roupas de tecido, como as nossas, e um olhar fixo, perdido. Parecia um bebé pequenino. Disseram-nos que era feita de borracha. Chamava-se Gracinha. E era bonita como a Carminho.
Passávamos dias inteiros com a boneca ao colo, a avó da Carmo tinha feito uns vestidos minúsculos iguais aos dela para o brinquedo. Uns azuis, outros verdes, mas os meus preferidos eram os cor-de-rosa, que tinham um laço para o cabelo da mesma cor.
Houve uma noite em todo o verão, daquelas em que a lua não aparecia, que cuidei eu da boneca. A minha amiga tinha-se esquecido dela lá em casa e a Gracinha dormiu comigo na minha cama. A avó disse que o bebé nasceria do tamanho daquele brinquedo e que eu tinha que a ajudar a mãe. Disse-me que eu ia ser uma irmã mais velha muito responsável e que era um cargo muito importante dentro da família. Eu disse que gostava que fosse um menino e que se chamasse Carlos, como o avô.
Nessa noite sem luz embalei a boneca como se fosse o meu mano já nascido. Disse-lhe que não tivesse medo do escuro, que eu não o deixava sozinho. Era linda, aquela boneca, era como a minha amiga Carminho.
O meu avô dizia que o Fundão era uma terra especial, porque era abraçada pela Gardunha e pela Estrela, duas serras muito bonitas que transmitiam uma sensação de repouso. “Repouso?”, risos, “Calma, tranquilidade”... “Ah!”
A Carminho e eu tínhamos duas seringas antigas que o avô Carlos nos emprestava. Só as podíamos usar ao pé dele, da avó ou da Marcelina mas, na verdade, a Carmo e eu fechávamo-nos no quarto e passávamos horas a brincar às enfermeiras. A Carmo estava sempre a dizer que era preciso salvar a boneca, que ela podia morrer. Dizia que sabia tratar da Gracinha melhor do que os médicos, porque os tinha visto tratar da mãe. Era preciso dar-lhe comida, a mãe tinha ido para o céu tão branca e magrinha que não era possível que a tivessem sequer tentado alimentar. Falava muito na morte, como se fosse um bicho. Nas noites sem lua eu tinha medo que a morte entrasse pela janela e arrancasse algum de nós dali de casa. Fechava as janelas e enterrava a cabeça entre os lençóis.
Uma vez o avô teve uma conversa muito grande com a Carmo, com a Gracinha e comigo e explicou-nos que era muito raro as pessoas morrerem como a mãe dela tinha morrido e que a boneca não ia morrer assim. Disse-nos que cada pessoa é como uma flor e que quando está bonita e crescida deve ser colhida. A mim pareceu-me uma grande injustiça, mas a minha amiga nunca mais falou em morrer.
Princesa do Mar Irado
Numa das noites em que o céu não tinha luz, o avô contou-me a história d’O Mar Irado. Disse-me que era uma história que passava de geração em geração e que a nossa família tinha sido escolhida para a guardar. Porque éramos especiais. Era ele o actual Príncipe do Mar Irado.
Há muitos, muitos anos, quando ainda nem havia dias nem noites e o tempo era uma nascente que brotava sem ritmo, o mar apaixonou-se pela lua. Era um amor impossível, estavam tão longe um do outro e, na verdade, o lua amava o sol há já tanto tempo. Tinham muitas filhas, as estrelas, que brilhavam iluminando a mãe, dotando-a de uma beleza irresistível e tão perfeita que toda a natureza parava só para a admirar.
Mas o mar não desistia, queria a lua para si, ignorava que a areia era sua em silêncio, deixando-se enrolar e desgastar pela força das águas.
O mar zangou-se, criou as marés que começaram a perseguir a lua quando esta, já cansada, fugia para longe, para longe até do sol. Nasceram os dias e as noites. A ira das águas separou o sol da lua.
A lua, desesperada, começou a desaparecer de vez em quando, escondendo-se atrás do seu amor, para que se pudessem amar em silêncio. Nessas noites o desespero do mar torna-se ainda maior porque não consegue ver a lua.
Muitos anos mais tarde, a natureza, cansada da ira do mar, investiu o primeiro Príncipe do Mar Irado. Aquele que, nos dias de maior tempestade, tem o poder de acalmar as águas e pedir-lhes que aguardem o regresso da lua. Aquele que leva a sabedoria a todos os que têm receio da escuridão.
Nunca mais tive medo das noites sem luz. Nunca mais deixei de ser a Princesa do Mar Irado.
Alexandra, Princesa do Mar Irado
Houve um dia em que o impensável aconteceu. Tantas vacinas demos à Gracinha que ela acabou por se estragar. Uma boneca tão bonita... A Marcelina pendurou-a junto aos lençóis e aos meus vestidos, mas o sorriso da boneca nunca mais voltou. O avô disse que era da água das seringas mas, eu sei que dentro da minha amiga havia a lembrança da mãe. Fiquei tristíssima, as bonecas de borracha eram muito caras e no Fundão ainda não se vendiam. Foi já no fim das férias que ficámos sem Gracinha e voltámos a brincar com as bonecas de papelão.
O verão acabou assim, em tristeza, pela despedida da Carmo, dos meus avós e pela boneca perdida. Voltei para junto dos meus pais onde me esperava um mano pequenino, do tamanho de um brinquedo, chamado Carlos Miguel. Como fora o meu pedido.
No ano seguinte a Carmo foi a primeira a chegar ao Fundão. Vinha crescida, alta e cada vez mais bonita. Esperava-me sentada no sofá da sala, com um grande laço na cabeça, da cor dos seus olhos: azulão. O meu avô tinha aquele sorriso malandro, cheirava a cachimbo e a rebuçados de mentol. A minha amiga tinha-me trazido um presente, uma boneca como a Gracinha, só que morena e de olhos escuros. Disse-me que era bonita como eu. Bonita. Como eu.
Desses verões eternos guardo a memória de ser feliz. Ainda sou a Princesa do Mar Irado, mas em breve passarei o testemunho à minha filha mais velha que com os seus receios de menina tem medo de viver, de crescer e de mudar. Tal como eu tinha quando o meu avô me contava histórias de encantar.
O regresso às origens pode trazer alguma mágoa ou tristeza. A verdade é que estas recordações me enchem de alegria, de uma infância que ficou algures perdida na floresta de emoções que vive dentro de mim. Pudera eu passar o cheiro do meu avô, ou a alegria de brincar com a boneca de borracha a qualquer uma das minhas filhas.
Da Carmo sei muito pouco, afastou-se, perdeu tudo menos aquela beleza do rosto. Levaram-lhe a alegria de criança, a força que parecia tudo vencer. Ela, que me deu mais do que um brinquedo, deu parte do que era dela para me fazer sorrir.
O tempo não parou, não esperou pelos meus avós, da mesma maneira que tinha deixado para trás a mãe da minha amiga. Mas a recordação de ser menina, enche-me um peito sem vida quando as tristezas apertam. Um verão pode ser uma vida quando em sonhos somos tudo o que quisermos. Meninas, mães, enfermeiras, irmãs e princesas. Um verão pode ser toda uma vida.
Dedicado à mãe da Lara e ao avô Alexandre, que nunca cheguei a conhecer.
Menção Honrosa no Concurso Desafio: Escrever! da Coolbooks.
Por alguma razão, nem sei bem qual, não quis ser a primeira a escrever. O Paulo e o Miguel lembraram-me que a melhor maneira de imortalizar alguém é cantar o quanto gostávamos dela e o quão importante foi essa pessoa na nossa vida.
A avó foi sempre mais do que isso. Foi sempre mais do que mãe, mais do que pai, mais do que professora, conselheira ou amiga. Tinha o condão de estar no sítio certo, à hora certa e contam-se pelos dedos das mãos as vezes que a vi triste, mesmo já depois de doente.
Da avó vou lembrar-me sempre das mãos. Estendidas, cruzadas, dadas a quem precisasse. Com os anéis que não largava. Sempre com aqueles vestidos floridos, a passear pela quinta com o seu pastor alemão atrás.
Da avó vou lembrar-me dos almoços "já comeste alguma coisa, filha?", das saudades que tive de que me abrisse a cama quando começou a ficar mais velhinha, dos lanches que nunca se cansava de preparar, dos óculos que nunca sabia onde estavam.
Do sorriso, do colo, da disponibilidade. Do amor incondicional.
A avó foi todo um ciclo da natureza. Partiu quando os filhos já estavam criados, os netos crescidos, quando a Pepa já tinha estudado para os exames e a minha mãe entregue as provas, quando cada um de nós já tinha a vida resolvida. Como uma árvore enorme que já não tem forças para dar flores e criou todos os frutos que fez nascer.
Passei o dia a falar-lhe nos netos, a contar-lhe histórias e a dar-lhe festinhas.
Não lhe larguei a mão até ter a certeza de que já não tinha réstia de vida.
Disse-lhe que gostávamos muito dela. Lutou pela vida até ao fim e foi cheia de memórias de nós todos.
Estou triste. Muito. Mas a avó viveu cada minuto que lhe era destinado, com uma vida cheia e sempre rodeada por quem a adorava. E essa alegria de a saber plena, que está cá dentro ainda escondida, vai superar largamente a dor da sua partida.
Escrevi uma vez que vivo na "ingenuidade da eternidade daqueles que sinto em mim". Mas a verdade é que, dentro de cada um de nós, a avó é eterna. Em cada canto da quinta, em cada flor bonita, em cada pôr-do-sol silencioso. Em cada trevo de quatro folhas, como aqueles que encontrámos no jardim um dia depois da avó morrer.
E nós todos, que juntos fazemos a memória da nossa avó, não a vamos deixar morrer nunca. Porque foi isso que a avó nos ensinou. Que as vivências, ainda que em memória, fazem cada pedacinho daquilo que nós somos. E agora, a avó é um bocadinho de cada um de nós.
Obrigada, avó querida, por nos ter mostrado o que é verdadeiramente viver.
A minha avó é a pessoa mais imperfeita que eu conheço. Enganava-se imensas vezes, punha de castigo quem não tinha feito a asneira, esquecia-se de anotar recados e telefonemas, trocava-nos a roupa e os horários da escola.
A minha avó abraçou-me quando eu não queria ser abraçada, zangou-se quando eu andava zangada e, quando o mundo que eu conhecia caiu por terra, foi no colo da minha avó que procurei consolo, foi com ela que gritei e foi a quem eu voltei as costas.
A minha avó todos os dias se levantava mais cedo para me fazer o almoço para eu levar para o colégio. Cozinhava os meus pratos preferidos: batatas fritas, hamburguers, bifinhos e arroz. Mesmo com uma empregada em casa, a minha avó não deixou nunca de continuar a ser mãe, a ser mãe através dos netos. Fazia bolos, aquecia a água dos sacos de água quente e abria-nos as camas para quando fôssemos dormir. Rezava todos os dias uma oração de que ainda hoje me lembro e contava-nos histórias, tantas histórias. "Era uma vez um galo, que andava a esgravatar num monte e encontrou uma carta que dizia assim: vai ao rei, que te dê meio molho de trigo e meio molho milho."
A minha avó jogava jogos, dizia rimas e ensinou-me a fazer paciências. Ensinou-me a ser paciente. Ensinou-me que uma senhora não sai de casa despenteada, que os sapatos devem sempre condizer com a mala e que de dia não se anda de pijama.
A minha avó hoje é uma sombra da mulher que costumava ser. Está velhinha. Grande parte do dia eu sou a Clarinha, a Teresinha, a Mariazinha ou mesmo, "a amiga da minha neta". Por isso, cada vez que oiço um "Ó, Rosarinho!" vindo da "minha" (somos muitos netos, bem sei... mas há uma parte da avó que é mesmo só minha, desculpem!) avó, sinto que já ganhei o dia.
Sim, está velhinha. Mas ainda tem o mesmo brilho nos olhos, o mesmo carinho e as mesmas, ai!... sempre as mesmas preocupações. Os filhos, os netos, as portas fechadas, as janelas trancadas e as refeições prontas a horas.
Se eu alguma vez conseguir ter metade dos defeitos (e gostava de ter a grandeza de os saber ter todos) da minha avó, serei a senhora mais feliz do mundo. Porque foi sempre isso que a minha avó foi e ainda hoje é. Uma senhora.
O beijinho é para todas as avós, mães e para uma tia avó bruxinha.
2004-05-02 14:57:55
A bebé Margarida agarrou-me o dedo e não largou. Riu e sorriu, fez gracinhas, sempre com o meu dedo entre as mãos.
E numa altura em que eu estava triste e desolada, perdida entre o desgosto de toda a gente, presa ao meu próprio desgosto, o sorriso da bebé foi um lembrar de tudo o que a vida tem de bom.
Há sorrisos e abraços que vencem todas as palavras do mundo.
Está escrito em cada pedra, montanha e rochedo que o sol se levanta e se põe sem se cansar. Que o vento sopra, quer a vida pare, quer o mar se afaste, quer uma qualquer nuvem apareça e tape o sol.
Está escrito que cada alma tem seu par, cada eu um tu igual, cada sorriso uma lágrima, cada toque um arranhão, cada alegria uma tristeza. Que cada única nossa riqueza serve para auxiliar a pobreza de um outro ser especial.
Escrevem os deuses que sejamos cada um. Cada qual com incertezas, com mágoas, virtudes, certezas. Cada um com manhas tamanhas, com defeitos, com sábias façanhas. Está escrito que cada um tem um papel fundamental no desenrolar da vida de alguém, que cada um é especial.
E nos livros tão escritos da vida há uma linha perdida, sem letras, despida, onde se espera que cada um dite a alternativa à partilha que lhe é destinada a viver.
Se os Y's das bruxas soubessem o que elas fazem enquanto eles estão entregues ao conforto do lar...
Onze e meia da noite.
- Embora ir ver se ele ainda está acordado?
Risos e mais risos, como se tivéssemos quinze anos.
- Embora, vamos lá.
Entramos na rua dele.
- Tenho sempre cá um medo de dar de caras com ele...
Olhamos para cima.
- ARGHHHHHH! Está gente na varanda, vamos embora!
Risos e gargalhadas, olhares para trás, "não olhes!".
- Por acaso acho que não era a varanda dele.
Mais risos.
Fiquei a pensar. Há coisas que não mudam, mesmo que sejamos mais velhas. E, tem piada, não é saber se ele está acordado que interessa, é mesmo sentirmos que temos companhia para fazer disparates, para sermos tontas quando nos apetece ser tontas, para voltarmos a ser crescidas quando "voltamos à terra". Saber que a um telefonema de distância, temos uma amiga que deixa tudo para ir ver o rio ("porque é bonito e tenho saudades"), ou para conversar porque apetece, ou nos telefonam a milhares de km's de distância só para dizerem que gostam muito de nós e que sentem a nossa falta. O que importa mesmo é partilhar a vida. Isso é que faz verdadeiras amigas.
O beijinho hoje é para as bruxinhas, para todas perto e longe, para a Murphy Brown e para a Pininha.
O Kiko descobriu que a Zarinho sabe algumas músicas do filme Rei Leão (muitos anos de babysitting...). Ficou maravilhado!
Foi sozinho buscar a cassete e pô-la dentro do video. Olhou para mim:
- Canta, Zarinho!
Tão querido, achou que a tia-prima sabia as músicas todas do filme... Lá fui inventando algumas, outras sabia mesmo e vi as aventuras do Simba (pela milésima vez) com o "já não é bebé" Kiko encostadinho a mim.
Ontem à tarde fomos os dois lanchar, como os crescidos. Portou-se lindamente e fartou-se de contar coisas que tinha feito na escola: "desenhou um leão, bincou, fez umas pintinhas" (eu nem percebi muito bem o que são as tais pintinhas, ele dizia "assim, assim" e eu fiquei na mesma).
Tem um carrinho daqueles que saem nos ovos de chocolate, com pecinhas pequeninas para montar. No meio da brincadeira o carro parte-se ao bocados. Fica com uma cara triste. Junto as peças, o carro já está inteiro outra vez. Olha para mim como se eu fôsse a salvadora do mundo e tivesse descoberto a cura de alguma doença."Oh!", sorriso enorme.
E enquanto ele brinca com o carrinho, bebe o sumo, entorna o sumo, atira boneco e mostra o que tem naquela mochila mínima que leva para a escola, o meu coração enche-se de paz e de ternura. De entrega incondicional. O meu Badamico está crescido.
Depois pôs uns óculos escuros encarnados que tinha dentro da mochila e eu fartei-me de rir, passou-me logo o momento piroso. Já não os tirou até chegarmos a casa da avó, o que significa que fez a minha rua para lá e para cá ("pode ir um bocadinho a casa da Zarinho, pode?"), o tempo que estivemos no café, o tempo que estivemos em minha casa, dentro do táxi, no elevador e dentro de casa da avó sempre de óculos postos.
Ainda agora tenho vontade de me rir, só de o imaginar com aqueles óculos encarnados. E a cara dele, todo importante, é qualquer coisa de outro mundo.
Vénus anda a passear pelo sol. Mal cheguei a casa fui logo intimidada a ver o espectáculo único, "és a única que ainda não viu!". Depois de pôr os óculos comprados na farmácia (que a Tia G. ofereceu cá para casa) andei feita tontinha à procura de luz, com aqueles óculos não dá mesmo para ver mais nada. Vi Vénus (tão querido), bem pequenino na imensidão que é o sol.
Não pude deixar de pensar como é incrível que, através dos tempos, a natureza e o universo nos continuem a fascinar. E que povos como os Maias, os Egípcios e os Romanos também apreciavam este tipo de acontecimentos.
Fiquei maravilhada e cheguei à conclusão que o que a tia G. disse fazia todo o sentido: "NÃO OLHEM PARA O SOL SEM OS ÓCULOS ESPECIAIS!" Queima...
Seus queixinhas!
Juro que ando mesmo sem tempo para escrever e ainda por cima o computador e eu temos problemas de entendimento. Problemas que se resolvem atirando o objecto pela janela, mas acho que cá em casa não iam gostar...
Outra vez com pouco tempo. Em vez de escrita diária passa a ser "escrita-quando-a-autora puder"...
- Então, Kiko? Foste com a escola ao jardim zoológico?
(olha para mim com uma cara surpreendida)
- Não! A escola ficou cá...
(só faltou dizer "daaaaaaaaaaaaaaaaa"!)
Telefona-me o M., pai do Kiko às 10e30 da manhã:
- Rosarinho?
- Sim, M.?
- Tenho aqui um menino muito triste porque diz que quer ir brincar com a Zarinho e não quer ir à escola.
(orgulho, roxa de orgulho, pronta a rebentar de orgulho)
- Kiko! A Zarinho hoje vai buscar o Kiko à escola e vamos os dois comer um gelado. E um chupa-chupa!
(silêncio do outro lado)
- A Zarinho promete! E vamos os dois brincar!
(silêncio)
- Está bem, Kiko?
- 'Tá bem... - diz finalmente o Badamico.
E lá foi um menino para a escolinha.
A Bruxa Má e a Feiticeira de Oz têm medo de baratas. Medo, não. Pânico. Não... Horror, será? Bem, têm qualquer coisa que as faz gritar, pular, empurrar as amigas para a frente e até deitar algumas lágrimas de tanto nervosismo.
Cada vez que me lembro da minha viagem de finalistas em que as baratas andavam na rua como cães... Havia baratas em todo o lado. Na rua, no hotel e até nos quartos de hotel.
Um dos dias a Juanita e eu vimos uma barata (enorme, diga-se de passagem) a passear lá pelo quarto. Chamámos as senhoras da limpeza.
- Mira, yo no veo la cucaracha.
A Juanita e eu tentámos explicar às senhoras que a barata andava por ali e que queríamos um insecticida para a matar. No exacto momento em que estávamos todas a sair do quarto, a barata ultrapassou-nos (literalmente), passando entre os nossos pés. Foi o verdadeiro caos.
- ARGGGGHHHHHHHHH!
Eu, que não tenho especial medo de baratas, fiquei parada enquanto as senhoras da limpeza desapareciam no corredor. "Estão a gozar comigo, só pode."
Matei a barata. De havaianas!
- Que bién!
(ficámos todas a olhar umas para as outras)
Uma das senhoras estende-me um pano.
"Ah! Quer que eu limpe?!" Penso eu, a julgar pela cara horrorizada da mulher. A Juanita ainda está em choque encostada à parede do corredor.
Uma coisa é não ter medo de baratas. Outra coisa é limpar aquele montinho verde e viscoso com patas.
Enchi-me de coragem, limpei o chão.
Depois disso, não há barata que me faça medo ou nojo.
Por outro lado, se falarmos de aranhas... Ui, a conversa é outra.
Fica para outro dia...
Era uma vez. E outra, e outra e ainda mais outra. Era uma vez uma babysitter que tinha treze "babysittandos" e seis sobrinhos-primos, mais uma a caminho.
A babysitter gosta muito de meninos, de tomar conta deles e de brincar. Às vezes também se zanga, mas é mais raro.
A Maria, o Simão e o Sebastião foram os primeiros. Eram bebés e viviam num castelo pequenino e temporário. Os pais estavam a construir um palácio, queriam mais principezinhos e princesas para aumentar a família. Mal sabiam eles que só íam mesmo ter mais princípes.
O Simão e o Sebastião sempre tiveram dificuldade em estarem parados. Mesmo de fraldas, adoravam comandos de televisão. Não para brincar, mas para destruir. O video lá de casa foi para arranjar vezes sem conta porque tinha brinquedos no sítio onde devia ter cassetes.
Nos anos seguintes nasceram o Santiago e o Salvador. Os quatro S's são terroristas. Até o mais pequeno que ainda nem anda, já gosta de destruir os quadros que o pai e mãe têm em casa. O Santiago prefere atirar brinquedos pela janela. No meio da confusão que podem ser as tardes passadas com estas cinco crianças no seu palácio com escadas, janelas e piscina (o pesadelo de qualquer babysitter) não há dinheiro que pague vê-los crescer e tornarem-se gente, nem as horas passadas a fazer cartões de Natal quando eles eram mais pequenos e que a Maria ainda hoje guarda, nem os desenhos com tinta especial que fazem para pôr nos vidros das janelas. Nem o amor que se pode ter por aqueles pais que entregam os cinco filhos à babysitter como se ela fôsse da família.
A Princesa Maria vai ser uma rainha simpática, inteligente e muito dada.
Os Principezinhos vão dar cabo do exército se alguma vez tiverem que fazer a tropa.
As Infantas Madalena e Marta foram a segunda casa onde a babysitter trabalhou. Autênticas princesas de cabelo loiro e olhos grandes, são muito delicadas.
Com estas Princesas a babysitter tem uma relação muito especial. Durante ano e meio tomava conta delas três vezes por semana. Fazia trabalhos de casa, brincava, dava banho, vestia pijamas e, às vezes, dava jantar. Quem tem filhos sabe bem o quão divertida a hora do banho pode ser e como os principezinhos e princesas contam o que se passou na escola, com quem brincaram, como é que lhes correu o dia.
Vê-las aprender a ler foi das coisas mais gratificantes que a babysitter viveu até hoje. E sabê-las independentes, a mudarem de escola, a tornarem-se meninas e conversarem sobre coisas importantes para elas também não há dinheiro que pague.
Estes pais viram a babysitter crescer e de vez em quando dizem: "Está tão crescida!". E ela olha para as "suas" meninas e diz: "Elas também." Cresceram juntas.
As Infantas vão ser duas mulheres lindíssimas e inteligentes. E confiantes, com muita força de vontade. Ah! E vão partir muitos corações...
(Intervalo)
Já me fartei de rir com a minha mãe à conta do comentário dela ao "post" Queída famía. Só mesmo os mais crescidos para nos lembrarem que também nós já fomos pequeninos.
Os diminutivos fazem parte do nosso crescimento. Desde que o Kiko nasceu que a minha irmã passou a ser Pepa. Cá em casa é como a tratamos. Eu fui Tiaia durante anos a fio e o primo P. era o Pico. O M. ainda hoje é tratado por Migalha, em momentos de mais mimo. O tio L. era o Luisocas e o tio A. o Zezé. E já me estou a rir sozinha em frente ao computador só com a ideia dos meus tios se chamarem Luisocas e Zezé.
Também tenho um tio Tó, um tio Caíta, um primo Toni, um primo João-João, uma tia Tita, uma tia Manica. Tudo é possível no mundo dos diminutivos.
Há uma bruxa Nocas, outra Zocas, outra Licas, Mag e Cat. A mim tratam-me por Rosa ou Rosita. Tenho amigos Bernas, Dani e até um Xarope (a minha mãe pergunta sempre: "Mas o rapaz não tem um nome mais bonito?". Tem, realmente, mas quando o tratamos pelo nome próprio é porque estamos a ter conversas sérias ou na brincadeira...).
Tenho conhecimento de uma prima da R. que é tratada por Bicha (era feia quando nasceu). Pois é... Os diminutivos de criança podem não ter tanta piada quando somos crescidos...