abril 30, 2004

AJIME!

- "AJIME" (lê-se ajimê)! - berra o Mestre mesmo ao lado dos nossos ouvidos.
- Ai, credo! Não é preciso berrar assim! - berro eu.
- Já começaram o combate? Eu já disse "Ajime" há meia hora!
Todos os treinos é a mesma coisa. "Rosário, tem atenção. Rosário pára de fazer caras, pára de te rir, não respires, não existas!" É que o fim do dia é uma altura complicada e a verdade é que há uns quantos judocas que é quando parecem ter mais energia. Juntos desestabilizamos um treino. Um... todos! Normalmente nem sou eu a começar o disparate, mas basta um dizer "mata" para os outros dizerem "esfola". E damos início ao espectáculo circense.
O Mestre concentradíssimo. Os judocas de várias graduações em círculo.
- Imaginem que alguém vos vem atacar e não sabem que arma é que ele tem.
Pronto, é o mote para o disparate:
- Uma carteira... -diz o André, baixinho.
- Uma caneta... - diz o João, sem desviar o olhar do Mestre.
- Um telemóvel... - digo eu.
- Um ornitorrinco... - diz o André.
- Um ornitorrinco?! - João e eu ao mesmo tempo.
- Ahhhhhhhh, ah, ah! - E pronto, acaba-se o sossego. É que, a partir de certa altura, até a parvoíve mais sem graça tem piada.
No fim do treino, já estamos tão cansados, desgrenhados e suados que a brincadeira se dá por terminada.
No último dia estes dois judocas não foram e o berro "Rosário!" ouviu-se consideravelmente menos. Ainda assim, prefiro o treino com os meus amigos do disparate. É que o judo, para além de um óptimo desporto de concentração (quando estamos a combater não pensamos em mais nada), é um escape para problemazinhos do dia a dia.
E tudo isto, aliado a uma boa dose de riso, deixa qualquer pessoa bem disposta.

P.S.: Pequenão se te "chibas" ao Mestre dou-te uma tareia!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 12:00 AM | Comentários (4)

abril 29, 2004

Um bilhete para casa

Em dias como este parece que o tempo pára. A memória é uma imagem que nos fica retida mesmo em frente aos olhos e não há maneira de desaparecer. Mudo-me hoje. Começo uma nova vida.

Conhecia-a sem manhas, inocente, brilhante, acabada de se formar. Usava o cabelo comprido numa trança, despretensiosa. Tinha uma beleza única, daquelas que se ama ainda sem se conhecer. Soube logo que era ela.
Foi um namoro curto. Soubemos mal nos tocámos que éramos feitos um para o outro. Ela cabia em mim na perfeição e eu, tão imperfeito, parecia uma mosca ao lado de uma borboleta, que voava reflectindo a liberdade, a nossa felicidade.

Levo livros, fotografias, roupa e memórias. Deixo o sofá, a nossa cama, duas filhas.
No carro espera-me o João, que nem fala. Dá-me um abraço e pega nos livros. Volto lá dentro. Faltam-me as malas. Falham-me as pernas. Desço as escadas lentamente. Tropeço num chinelo. É da Marta, não me zango. Ainda nem saí de casa e já lhe sinto a falta.

A Gabriela foi sempre assim, esvoaçante. A mim faltava-me a vista, ela via para além da realidade. Tocava em toda a gente com um olhar, generosa quando menos se esperava.
Quando nos mudámos para a casa da Lapa, descia e subia as escadas vezes sem conta, como agora a Marta o faz, com a mesma leveza, o mesmo brilho, o mesmo sorriso. "A nossa casa, Pedro! Nossa!" E eu o enfezado, feio, gordo, chato. Nunca percebi o que viu ela em mim, a Imperfeição.
Nunca pensou muito, a Gabriela. Vivia assim, muito ela. Vestidos azuis e verdes, quase transparentes que lhe davam a fluidez de uma palavra. Ria e ria sozinha, sentada no chão, com a simplicidade de uma princesa que não sabe que vai ser rainha.

"Levo-te onde?"."Vira à direita. Fico em Sta. Apolónia" Saio, bato com a porta, peço desculpa, despeço-me.
Cai-me um livro, apanho-o com esforço. Caiem todos. Mal contenho as lágrimas. Sou um farrapo.....
"Um bilhete para Santarém, por favor". Um bilhete para casa.

Já com o cabelo loiro simplesmente cortado pelos ombros, nasceu dela a Sofia. Desajeitada como eu, mas com algo etéreo naqueles olhos de veludo preto. Linda que ela ficou com aquela criatura, tão nossa, nos braços. Momentos de pura felicidade. Foi o meu primeiro momento de perfeição.
O segundo viria um par de anos mais tarde, a Marta, com tão poucos genes meus, que se diria ter nascido da Gabriela por espontânea vontade. Tão perfeita, tão leve, tão brilhante que quase ofuscou a própria mãe.
Assim se viveram os primeiros anos, entre os frutos da nossa ligação, o emprego e a perfeição dela cada vez mais trabalhada, cada dia mais bonita. E eu, e cada vez mais, o feio, o gordo, o chato.

O comboio acabou de partir.
Pego na fotografia dela. Aquele vestido azul...
O casamento do João foi o princípio do fim. Ela corria pelo relvado e chamava-me. "Pedro! Pedro! A noite é nossa. Vem comungar comigo e com ela..." E eu tão perdido naquilo que queria ser, naquilo que devia ser, não lhe agarrei as asas no momento em que ela, pela última vez, me pediu para levantarmos voo.

Quando o meu melhor amigo se casou, o João, conheci a Vera. Feia como eu, tão imperfeita, tão terra quanto a Gabriela era céu. Mas tão real que não pude deixar de a tomar.
Tornei-me impuro para aquela minha criatura celestial. E ao ver que estava a destruir a minha vida, não fui capaz de a deixar de arruinar. Cavei, cavei na terra, ficando cada vez mais longe do céu. Até que a luz desapareceu.
E a Gabriela tecia, em casa, as últimas malhas da sua dignidade.

Escapa-me uma lágrima em Vila Franca de Xira. Duas filhas, uma casa, o sofá, uma vida. Deixo-me cair para trás. Já me deixei ficar atrás há muito tempo.

Naquele dia ela tinha os olhos cinzentos, da cor do céu. Lembro-me que senti que toda a Natureza me assomava, pronta a deixar cair uma tempestade sobre os meus ombros.
Deitou a Sofia e a Marta e, com a mesma fragilidade com que se entregou a mim a primeira vez, disse-me que queria que saísse da sua vida. Foi assim mesmo. "Sai da minha vida. Leva tudo o que é teu e desaparece".
Desaparece...

Penso nos sorrisos das minhas filhas. Sorrio eu também.
Falta pouco para chegar à minha nova vida. Não me esperam, os meus pais. Nem sei muito bem como lhes explicar como repudiei a perfeição. Toquei-lhe, mas preferi ser imperfeito.

Toco ao de leve na fotografia. Está fria, já não é minha. Tem a mácula do instante em que me pertenceu.
Pego nos livros, nas malas, no peso das memórias e saio do comboio.
No rasto daquilo que fui, ficam no chão pedaços de existir.
Olho para o que vai ser o meu novo espaço. Sinto e sei que a oportunidade de ser feliz, essa, essa também eu a perdi.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:52 AM | Comentários (8)

abril 28, 2004

A maldição do post

O post anterior foi escrito três vezes antes da publicação. Cada vez que o estava quase a acabar, apagava-se. Já estava a dar em doida e num estado tal de irritação que a Murphy Brown me dizia:
- ISSO É UM BLOGUE! Por amor de Deus...
Mas só quem também vive estas coisas é que sabe, certo? Agora já está e eu já vou dormir descansada.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 12:01 AM | Comentários (0)

"Já não te quero"

- Mas achas que lhe telefone? - pergunta-me a minha amiga.
- Acho que sim. Nem que seja para arrumar o assunto de vez. Estás preparada para que ele te volte a tratar mal?
- Estou...
- E se ele se quiser encontrar contigo?
- Bem, para isso acho que não estou.
A rejeição é o pior sentimento do mundo. Traz-nos ilusões de não adaptação, de impotência, de falhanço. Esta minha amiga foi apanhada no meio de uma relação mal acabada. Ele vinha de uma entrega de não sei quantos anos e ela ía trabalhar para outra cidade. Foi o suficiente para ambos viverem numa do "'tou nem aí". Só que as coisas não são sempre tão fáceis de definir e os sentimentos não deixam de nascer porque nós queremos (há três bruxas que vão dizer "nós tínhamos razão!", mas eu já volto a este ponto) e, o que começa como um consolo emocional acaba em desilusão desconsolada. Tenho a certeza que, a minha amiga, se agarrou mais a este Y porque nele materializou tudo aquilo que ela ía deixar: a família, os amigos, a cidade onde sempre viveu. Ela foi-se embora e ele voltou para a ex-X.
- Olha, vais ao cabeleireiro cortar o cabelo (coisas de mulheres), pões-te gira e telefona-lhe. Não deixes que te volte a tratar mal. Se ele for parvo, esquece. Deste o teu melhor. E vais-te embora com a certeza de que é um paspalhão!
Outra amiga minha envolveu-se com o melhor amigo. Pois, normalmente é um "erro crasso" e este caso não foi excepção. Ele estava numa de viver a vida e ela numa de o viver a ele. Correu mal.
Diz ela:
- Mas tu não percebes! Eu quero-o a ele!
E eu olho para a mulher lindíssima que tenho à frente e que pode ter todos os homens que quiser e digo-lhe:
- Tu só o queres porque ele não te quer!
Nestas coisas da rejeição o fruto proibido é o mais apetecido. Funciona sempre assim, mesmo que na altura da rejeição nós soubessemos que aquela relação não ía funcionar.
Não, os sentimentos não se controlam, as três bruxas têm razão. Mas podemos sempre tentar sair a tempo, se acharmos que a outra pessoa não está tão emocionalmente ligada. Toda a gente rejeita e é rejeitado. Faz parte de nós procurar o X ou Y com quem mais somos compatíveis. E se não é aquele que pensávamos, há que procurar melhor. Daí a um mês, o desgosto dá lugar a um novo corte de cabelo e a uma atitude diferente perante a vida. E não há nada que um grupo de amigas não resolva. Como diz a Bruxa Má:
- Vão, vão à procura dos vossos Y's. Digam que controlam a situação que, quando for preciso, eu estou aqui de braços abertos para receber o vosso desgosto.
Dá-me vontade de rir. É que, de vez em quando, até a pedra mais dura leva um pontapé. Mas isso, isso já é outro "post"...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 12:00 AM | Comentários (8)

abril 27, 2004

Bebé Maria

O bebé Peixinho (ainda em forma de presente, dentro da mãe) é uma menina! Tivemos a confirmação ontem, o Kiko Badamico vai ter uma mana chamada Maria.
E agora, a tia-prima babada, em vez de comprar piões e carrinhos também vai comprar bonecas e laços cor de rosa!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 07:22 PM | Comentários (4)

Relação quarto/vida

O meu quarto e a minha vida seguem caminhos paralelos de arrumação. Parece incrível, mas é mesmo verdade. Quando tenho problemas a mais para resolver e não consigo dar conta do recado, o espelho imediato da situação é o quarto. Cheio de roupa, pó, cremes, perfumes, sapatos espalhados pelos cantos, cadernos e folhas perdidas por todo o lado. Porque é assim que me sinto. Desarrumada. E até conseguir endireitar cada problemazito dentro da minha cabeça, o meu quarto continua caótico. Cada vez que me deito, tudo o que foi arrumado durante o dia em cima da cama volta para o chão. E, o dia seguinte, volta a começar como o anterior, em stresse. Porque pisei uma caneta, porque a minha camisa preferida está por baixo de uma bota, porque já não sei onde é que tenho aquele caderno onde estava o final tão esperado da história e que foi escrito num momento de inspiração.
Percebo que está tudo a passar das marcas quando a minha irmã de manhã me pergunta:
- Então? Hoje és a Rosarinho ou a Cruela de Vil?
E pronto. Sento-me. Faço uma lista do que tenho para fazer. Passo dois dias a tratar de tudo e mais alguma coisa que deixo sempre para o último minuto e, muito importante, arrumo o meu quarto. E a vida parece logo tão menos complicada do que há duas horas atrás.
Hoje está mais ou menos... Não está no seu pior, mas também esta semana está cheia de importantes decisões e entregas profissionais. Tenho a certeza que, mal tiver a vida arrumada, o meu quarto vai ficar impecável. Até lá, vai acumular as vivências e preocupações que trago comigo. Exactamente como a minha cabeça.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 12:00 AM | Comentários (12)

abril 26, 2004

Queixinhas

Recebi umas queixinhas existenciais acerca da ausência de um post que já cá esteve. Tirei-o porque, tendo em conta o dia em que foi publicado, podia ser mal interpretado por algum Y mais espertinho e também porque achei que podia melhorá-lo. Foi preciso ter pontaria para dar com o post, tendo em conta que nem aqui esteve muito tempo...
Amanhã volta, remodelado... Prometo!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 05:02 PM | Comentários (1)

Libertinagem Verbal

As mensagens de telemóvel facilitam e complicam as relações amorosas. Porquê? Porque o telemóvel é um objecto que possibilita a "Libertinagem Verbal". Apaixonamo-nos, zangamo-nos e resolvemos problemas através das sms's.
As mensagens por telemóvel até têm uma linguagem diferente. Usamos a pontuação para fazer sorrisinhos simpáticos, irónicos, brincalhões, para mostrar a quem recebe a mensagem o estado de espirito ou entoação a dar-lhe. Mas que grandes riscos se correm... A quantidade de casos que conheço, e até por experiência própria, de mensagens que foram mal interpretadas.
Não dando a mostrar a cara, tornamo-nos todos muito mais seguros e libertinos verbalmente. Dizemos o que achamos que poderemos vir a sentir, que nunca teríamos coragem de dizer à outra pessoa naquele exacto momento. Estabelecemos "primeiros" contactos, também à distância das teclas, e banalizamos cada vez mais frases que ditas têm toda uma dimensão mais profunda.
Não, não estou a tirar importância às mensagens por telemóvel. Para a minha geração e vindouras, é um meio de comunicação sem o qual já não se vive. Sentimo-nos nús sem aquele objecto mínimo e até nos esquecemos que há telefones públicos em quase todas as esquinas e que aquela coisa antiquada que temos lá por casa também dá para fazer chamadas e se chama rede fixa.
É óbvio que não me estou a referir a mensagens para fazer combinações, ou para "mandar" um abraço. Estou a referir-me aquelas sms's que servem para causar e resolver, de um só impacto, problemas que não deviam ser tratados desta maneira.
Eu tenho a teoria (e também a prática, desde que me apercebi que também sofria de Libertinagem Verbal) de que só se escreve o que já se tenha dito à pessoa ou que se diria naquele exacto momento se ali estivesse presente. Ah, e nem todas as mensagens precisam de resposta, isto mais entre Y's e X's. Algumas das Bruxas acham estranhíssimo... Se um Y nos manda uma mensagem, há que responder. Ou, se não lhe respondemos, é para o deixarmos na espectativa da resposta. Uma espécie de jogo do gato e do rato... Não, eu não penso assim. Prefiro dizer-lhe, quando o vejo, que gostei daquela mensagem ou simplesmente dar-lhe um abraço. Ou não lhe dizer de todo! Mas nunca usar o não responder à mensagem como moeda de troca para o jogo do "ganhei eu", não lhe disse nada. Isto é que não me diz mesmo nada.
É uma realidade. As sms's causam Libertinagem Verbal. Mas, ainda assim, há mensagens que se recebem que nos marcam de uma maneira especial. Guardamo-las e podemos lê-las em qualquer altura, em qualquer lugar. Eu? Tenho umas quantas...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 11:11 AM | Comentários (5)

abril 25, 2004

Trocas

"O outro é tão bonito! Afinal já não quero este..." diz a tonta da senhora a quem dei um cão. Antes do bicho nascer, procurei quem quisesse os filhotes da cadela lá do Exílio. Não se encontrou ninguém, a não ser uma vizinha que queria "muito um cão para lhe fazer companhia." Fiquei contente, afinal mora ali mesmo ao lado, podia ir vê-lo quando quisesse. Sobreviveram dois cães, amorosos. Um ficou lá em casa e o outro foi para a dita senhora, escolhido por ela mal o bicho nasceu.
Ao fim de seis meses apaixonou-se pelo cão com que nós ficámos e "já não quer o outro". Eu nem queria acreditar. Como é que é possível tamanha displicência e falta de bom senso. Quer trocar? Como se fosse um carro, ou uma saia que afinal não lhe serve?
Pois é, agora troca-se tudo. Troca-se de marido, de amigos, de emprego, de frigorífico, de casa, de roupa e só não trocamos de filhos ou de pais porque são vínculos que ultrapassam a burocracia.
Muito bem. A minha vizinha não fica nem com um, nem com outro. E também acabou de ficar sem a minha paciência e simpatia.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 07:48 PM | Comentários (4)

De vassoura

Tem sido raro levar a vassoura da Bruxa Má e da Morgana a sair à noite. Mas hoje, como a Má queria voltar para casa cedo (é sempre quando acabamos por voltar ainda mais tarde), resolveu levar a viatura.
Fica estacionada longíssimo. Claro, à chegada está sempre perto do destino. À vinda, com saltos altos e cansaço à mistura, parece que deixámos a vassoura em casa.
A Bruxa Má e a Maga Patalógica vão à frente. Eu prefiro ir atrás. Há mais espaço. Descalço-me, percebo que a Patalógica também, a julgar pelos olhares recriminadores da Má.
- Cheira-me a cholé!
- Eu descalcei-me.- digo lá do fundo.
- Não, é daqui da minha direita.
- Sim, sou eu...- responde a Maga.
(silêncio)
- Tira-me os pés daí! Que nojo!- grita a Má para a Patalógica.
Olho para a frente e vejo que a Bruxa tem os pés quase ao lado do volante.
(silêncio)
- Foi giro, não foi?
- Muito! Mas estou cansadíssima...- respondo eu.
Deixamos a Patalógica e continuamos caminho.
(silêncio)
- Estou podre de cansaço...
- Amanhã de manhã vou trabalhar.- diz a Má.
(silêncio)
- Tenho fome.
- Também eu. Mas já sei que não vou ter paciência para ir à cozinha comer qualquer coisa... - digo eu.
Na Avenida da República apanhamos os sinais todos verdes. Parecendo que não, ganhamos imenso tempo.
- Olha, estava a ver que me esquecia de ti.- diz a Bruxa.
(Fiquei algum tempo a tentar perceber, confesso. Estou mesmo ao teu lado, esqueceste-te de quê?)
- Não, vamos bem.
(silêncio)
- Beijinhos, até amanhã...
- Até amanhã.
E lá acaba outra noite de Bruxinhas.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 06:09 AM | Comentários (1)

abril 24, 2004

Ó Zarinho!

- Ò Zarinho! (diz-me o Kiko ao telefone, depois de a mãe dele me ter dito: "olha que ele fica calado e não diz nada!") O Kiko tem um pião novo para brincar com a Zarinho! Põe no chão e faz assim, assim!

E eu ri-me. Sei que ele me diz isto porque cantamos sempre os dois:

Eu tenho um pião, um pião que dança (ele repete dança e abre os braços)
Eu tenho um pião, mas não to dou, não! (NÂOOOOOOOO! diz ele)
Gira, que gira o meu pião
Mas não to dou, nem por um tostão!
(Tustãuuuuuuuuu!)
Eu tenho um pião, um pião que dança
Eu tenho um pião, mas não to dou não!
(NÂOOOOOOOO!)

Adivinhem o que é que a Zarinho já tinha comprado para lhe dar nos anos? Pois é, um pião. Agora fica com dois.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:50 PM | Comentários (0)

Ausência

A tua ausência já é presença. Onde nós estamos, fica sempre vazio o lugar que é para ti. Fica sempre no ar o espaço onde estaria a tua resposta.
O que vale é que o tempo passa mais depressa do que parece e, num piscar de olhos, já temos Morgana outra vez. Confesso que combinar saídas nem tem o mesmo impacto. Com a Morgana eu sei: olhamos uma para a outra, "casa?" E lá vamos, mesmo que as outras bruxinhas não se queiram vir embora. Até costumamos ter sorte porque o nosso amigo Pérola tem o condão de nos encontrar à porta de discotecas e nos trazer a casa.
Ontem, nem o Pérola nos valeu! Encantou-se com uma X e a Má, a Patalógica e eu viemos de táxi, já podres de cansaço. O amigo do Tenro, o D. Juan, fez-nos companhia até nos virmos embora e sempre deu para nos rirmos com os disparates que aquela criatura diz.
Beijinho, Bruxa Morgana!
Saudade...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:45 PM | Comentários (1)

Opções

Diz-me assim o Pipo: "Sabes, cada vez mais acho que as decisões e opções que fazemos voltam sempre a nós." Eu fiquei a olhar para ele, à espera que se explicasse melhor. "Mesmo tudo o que nos parece insignificante acaba por, mais cedo ou mais tarde, ter algum impacto na nossa vida. Ainda que estejamos já num outro caminho." Eu pensei num copo com água. Um dedo dentro do copo faz umas ondas no líquido que se propagam para os lados. Mas, mal batem no limite do copo, voltam outra vez ao centro. Assenti. "Tens razão". Pensei numas amigas minhas, de quem gosto imenso, que passaram o curso a copiar. Não estou a criticar, longe disso. Foi a opção delas. Mas, não sendo nenhuma delas burra, é óbvio que não aprenderam tanto como se tivessem mesmo estudado. Agora, já depois do curso terminado, precisam de ser avaliadas por professores de outra instituição que as avisaram: "Não é só na faculdade que se chumba...".
Uma vez tive uma discussão enorme com elas porque me diziam que na faculdade não tinham aprendido nada. Eu fiquei em choque... "Como é que podem dizer uma coisa dessas?! Se tivessem lido a bibliografia que os professores pediam e se não tivessem lido as obras por apontamentos mal escritos e resumidos de forma exagerada, de certeza que vos tinha ficado mais alguma coisa na cabeça." Claro, acabaram o curso. Mas será só acabar que importa? Não é bom sabermos que demos o melhor de nós?
É verdade, temos sempre dois caminhos na vida. O mais fácil e o mais difícil. Qualquer uma das escolhas tem a sua consequência. Mesmo quando pensamos que já passámos essa encruzilhada há muito tempo.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:32 PM | Comentários (0)

É tempo.

Há já tempo que não me sou, que não me vejo, que não me sinto. Que não abraço um tempo, tão lento, que passa sem me esperar.
Há já tempo que não te sou. E sem te ser, não me sou completamente e o tempo, ainda mais lento, faz-me sentir, assim, tão só.
É tempo. É já tempo de nos sermos, de nos darmos sem temor. É tempo de sabermos que um caminho que começou, precisa bem mais do que uma espera, do que um sorriso, do que um ou outro som.
É tempo. De me dar ao vento, de viver cada momento. De me ser, de ser quem sou. É tempo de saber que a vida, mais do que uma espera, é um caminho que eu não quero seguir só.
Dá-me tempo. Dá-me tempo para me ser, para me encontrar, para te ser. Dá-me tempo para mais do que te ver, dá-me, para saber quem eu te sou.
Dá-me tempo para me ser. Porque quando me for, ser-te-ei também. E ser-te-ei tão completamente que não serei de mais ninguém.
Agora é tempo, antes que deixe de o ser.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 11:35 AM | Comentários (0)

abril 23, 2004

Está surdo, coitado.

(Assobio)
- Rodolfo! Anda à rua!
O cão olha precisamente para o lado oposto e vai a correr em direcção ao meu quarto. E eu estava mesmo ao lado dele...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:39 AM | Comentários (5)

O Sr D.

Durante uma aula de condução. Eu parada na passagem de peões, uma senhora idosa a atravessar.
- Vá, Rosário, acelera!
(o Tico e Teco: primeira, tira o pé do travão, passa para o acelerador... TRAVÃO!)
- Ai, Senhor D.! A velha!
(O senhor D. a rir-se às gargalhadas. Continua a rir-se às gargalhadas. Risos de ambos.)
Entretanto, a senhora idosa já atravessou.
- Vá, Rosário, anda lá com isto que está outra velha ali à frente.
Já tenho saudades da boa disposição e humor macabro do Senhor D...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:37 AM | Comentários (2)

abril 22, 2004

As "minhas" meninas

As Amigas

As amigas são como um estrela que brilha no nosso coração, que nos apoiam durante a nossa vida e que brincam connosco. Mas nós também temos de as apoiar e tratar bem delas.

Marta Maltez (8 anos)

A Primavera

A Primavera é aquela que desperta as flores e os corações floridos das pessoas.
A Primavera é aquela que adormece sobre o cheiro das rosas, e acorda perante o vôo das andorinhas.
A Primavera é a estrela do céu e a flor da terra.
A Primavera é a estação das andorinhas, aquelas avezinhas, que enfeitam o céu com o seu vôo e o seu canto.
A Primavera é a estação mais bonita do ano.

Madalena Maltez (10 anos)

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:33 PM | Comentários (1)

Ó Malhão, Malhão!

Ó Malhão, Malhão!
Quem te roubou as notas?
Ó Malhão, Malhão!
Quem te roubou as notas?
Foi o Valentino, foi o Valentino
que fez as contas tortas...

Ó Malhão, Malhão!
Quem meteu o golo?
Ó Malhão, Malhão!
Quem meteu o golo?
Foi o Valentino, foi o Valentino
que engrominou o jogo...

Ó Malhão, Malhão!
Palmas para a PJ
Ó Malhão, Malhão!
Palmas para a PJ
Corre o norte e o sul
e pelo caminho põe todos na choça.

Ó Malhão, Malhão!
Quem leva com o apito?
Ó Malhão, Malhão!
Quem leva com o apito?
É o Valentino que vai dentro e agora
já está tudo dito!

(Não resisti a seguir o exemplo do Alguidar...)

Publicado por Rosário Dias Diogo em 08:00 AM | Comentários (6)

abril 21, 2004

A perfeição de um beijo

A perfeição de um beijo faz-se de simplicidade, de entrega e de intimidade e até de um toque de mão.
O beijo diz tudo e nada, apaixona-se, pela calada, e deve roubar-nos a alma quando menos o esperamos.
Um beijo pode ter a brevidade de um instante mas, quem sente, vive a imensidão de tempo que emerge em forma de pensamento, e tudo apenas, na perfeição de um beijo.
Um beijo tem asas e prende, voa alto e corre rente, completa-nos e deixa-nos de tal maneira sem forças que procuramos em acções, tantas promessas de outros mais.
Quem noutras bocas beijos procura, engana-se na partilha. Porque depois de um beijo perfeito, não há outros que nos envolvam com aquela serenidade, com a chama e liberdade que nos amarra a quem nos beija.
O silêncio de um beijo brota sem fonte segura, deixa a marca que perdura, mesmo se o tentarmos esquecer.
E o beijo mais perfeito é aquele que dá alento, mesmo que não se saiba haver ainda sentimento, para aperfeiçoar a sua própria perfeição.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 12:07 AM | Comentários (12)

abril 20, 2004

Encontros com Kiki Gomes e Travessas

- 'Tou Cuca Aleixo?
- Sim? Quem fála?
- Sou eu, crida... A Kiki Gomes e Travessas.
- Ólá, então, cônta lá.
- Não 'tás bém a ver... Ele não ligou.
- Ó crida... a crida já devia saber que ele não ía telefonar.
- Eu achava que este era diferente.
- Mas diferente, cômu? Não o conheceu na Kapital, como os últimos tês?
- Foi... mas este não tinha um telemóvel Nokia, juro que pénsei que ele era diferente.
- Como é que se chamava?
- Ai, credo, néin me lembro. Era o do carro descapótável.
- Já sei. E de óculos iscuros.
- Isso. 'Tou pá qui sozinha e já me fartei de comer chocolates.
- Cois' órrorósa, esta gente é tôda igual. Deixa lá, o próximo é diferente.
- Pódes ter a cetêza, sábado vamos ao Lux.
- Krida?
- Sim?
- É que aí, para além de não lhe ligar, pode ser que seija... Tá ver? Assim meio... meio larilas? E ainda é trocada por um ómem.
- Desisto, não quero saber de ómens para nada.
- Olhe, vamos é ao Jamaica que está arrebatado de gente gira e colunávél.
- Pronto, tá combinado. Passo pela tua maison às onze de sábado.
- Certo, baijo Kida! Boa semana de trabalho.
- Baijo pa ti támbém.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 11:44 AM | Comentários (1)

abril 19, 2004

Ralações

As relações humanas são complicadas. Todas. As de amizade, amor, parentesco, sei lá que mais. Não que sejam uma má complicação, não é isso. Mas exigem constantemente atenção, pequenos arranjos. Implicam crescer em conjunto, respeitar, gostar, refutar, zangar. Exigem dar e receber.
Vínhamos a Bruxa Má, a Feiticeira de Oz e eu a voltar de táxi da nossa tranquila noite quando, por acaso, falámos de amizades. Mesmo só amizades, entre homens e mulheres. A linha entre um melhor amigo e um amigo é clara. Um melhor amigo é aquele com quem vamos jantar fora, ao cinema, que vem sair com as amigas. Como um namorado e sem que o seja. Na teoria, o papel é parecido. Na prática, a relação é muito diferente. O melhor amigo faz-nos companhia, idolátra-nos, chama-nos à razão e pode até ser um bocadinho cruel nos comentários que faz acerca da nossa roupa ou penteado. A um namorado nem sempre damos esse tipo de espaço, é um facto. Ficamos furiosas se nos faz comentários mais acesos acerca daquilo que deveríamos vestir.
Para as mulheres é difícil conceber como é que um melhor amigo se pode apaixonar por nós ou querer mais do que a amizade que lhe damos. Sentimo-nos traídas, pensamos: "Fogo, afinal só foi meu amigo porque queria mais. É um interesseiro."
É que nós somos ainda mais matreiras e nisto a Bruxa Má é perita! Tentamos conquistar o sexo oposto com sorrisos e falinhas mansas. Estar quando não se está, criar pontos de referência que os façam lembrar-se de nós quando não estamos ao pé deles. Os homens actuam de maneira diferente e, por isso, não estamos acostumadas a que nos queiram como amigas e depois como namoradas. Muitas vezes até é ao contrário. Começa como o que parece ser o início de um namoro e acaba em amizade por "faltar qualquer coisa". Aí já sabemos com o que contamos.
Por sua vez, as mulheres gostam de definir as relações que têm. Este é para ser amigo, este para namorado, este é meio incerto. Partem do princípio que aquela pessoa com quem têm tanta intimidade não vai ser mais do que amigo. Claro, há excepções. Mas os melhores amigos conhecem os defeitos uns dos outros... Lá se vai parte do mistério da descoberta de uma relação amorosa.
O senhor táxista disse assim: "Peço desculpa por estar a ouvir a conversa... (nós olhámos umas para as outras) Mas eu tenho uma teoria. Para duas pessoas do sexo oposto serem melhores amigas, para além de todas as afinidades que possam ter, tem que haver também uma química hormonal. (Eu pensei, isto deve ser "explicável" cientificamente. Faz todo o sentido, a química move a natureza. Porque não também as relações humanas, ainda que só de amizade?) É natural que em alguma parte da relação um dos lados tenha dúvidas acerca do que espera mesmo. É difícil que assim não o seja."
Fiquei a pensar nisto. Aliás, ficámos todas. Dormi em casa da Bruxa Má e ainda estivemos a conversar um bocadinho acerca dos Y's das nossas vidas. Para ser Y é porque não é só amigo, é óbvio. Amigo seria qualquer coisa como um Z.
A Bruxa Má é uma namoradeira. É de longe quem consegue manter mais Y's na vida dela ao mesmo tempo. (risos) És a nossa heroína! Sair à noite com ela é uma emoção. "Está ali um, e ali outro!"
(Tenho que contar isto. Outro dia aconteceu o que já se esperava há muito. Duas bruxas tinham dois Y's em discos diferentes. Conseguimos ir aos dois sítios, ainda nos dividimos, mas acabámos a noite todas juntas. Foi fantástico... Será que eles sabem o trabalhão que dá planear as nossas saídas, Bruxinhas?)
O condutor fez-nos pensar. E surpreendeu-nos a forma clara e simples com que nos explicou esta sua consideração masculina. Não, não nos deu nenhuma notícia. Mas também não teve a conversa do costume: "Homens e mulheres não podem ser amigos". A surpresa foi mesmo essa.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:19 AM | Comentários (6)

abril 18, 2004

Noites Tranquilas

Ontem a Murphy Brown veio sair com as bruxinhas. Para além de mim, estavam a Bruxa Má e a Feiticeira de Oz, que levou um amigo. Estivemos quase todo o tempo no mesmo bar, à conversa sobre tudo e mais alguma coisa. Encontrámos por lá uns amigos da Maga Patalógica que nos acompanharam na Volta do Macaco. Uma voltita pelo bairro para ver quem está e não está.
Foi bom, noite de meninas, tranquila, cheia de conversas engraçadas e partilhas profundas. Já tinha saudades.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 11:13 AM | Comentários (1)

abril 17, 2004

Babysitter sofre...

As Memórias de uma Babysitter. (risos) Um destes dias escrevo um livro. Até lá, deixo-vos algumas passagens.

Maria (tinha seis anos): Rosarinho! Traga-me uma palhinha!
Eu: Agora não posso, estou a dar de jantar ao Sebastião. Vá lá a Maria, vá.
Maria: Estas empregadas são todas iguais.
(a empregada tinha-se despedido há pouco tempo)

Marta (tinha quatro anos): Estúpida! Estúpida! Estúpida!(constantemente)
Eu: A Marta sabe o que é que quer dizer estúpida?
Marta: Não...
Eu: Estúpida quer dizer burra, não se diz.
Marta: Então és estúpida e burra.

Eu toda vestidinha para ir sair à noite, fui fazer babysitting tarde e os bebés já estavam a dormir. Chora o Afonso (dois anos), vou ao quarto, pego nele. Vomita-me em cima. Mas mesmo em cima! Até as botas cheiravam a azedo.
Curiosamente, já não fui ter com as bruxas.

Hora de ir para a cama.
Simão (nove anos): Tenho que ir lá abaixo buscar um livro para a escola!
Eu: Agora já não, amanhã sabe onde está.
Simão: Mas é muito importante!
Eu: Então, pronto, vá lá. Mas rápido!
...
Simão (passa por mim, nem olha para cima e diz baixinho): Trouxa...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 01:19 PM | Comentários (1)

abril 16, 2004

Saudades

Alfazema: Elsa.
Aulas: não ir, conversar no bar, L., Lara Lee, Juanita e Ana Pinta.
Bichos: a Hortelã, o Rodolfo, a Rosita Coelha.
Conchinhas: Tia G.
Colégio: os baloiços.
Caminho até à faculdade: L.
Cachimbo: pai.
Bifinhos: avó L.
Bolo de morangos: Pininha.
Fins-de-tarde na praia: Bruxa Má.
Fugir: no avião do tio L. e quase vomitar para cima do mano G.
Frases: "quem não convém manda calar", "na praia da Nazaré ninguém pode andar em pé".
Flores: todas aquelas a que não sou alérgica.
Jogo: o da Máfia.
Livro: todos, todos e todos.
Mimo: colo da mãe.
Mensagens de telemóvel: Tio Tó.
Milão: Calolas, Nana e Valente (as quatro da vida airada). O castelo, os jardins, os eléctricos, as idas ao supermercado, a noites não dormidas, os medos, incertezas, a vontade de descobrir e de viver.
Maiorca: Bernas e corridas à volta do carro.
Mau humor: o meu, matinal, e a Isabel (colega de quarto da residência, no Erasmus) a tentar acordar-me com músicas da Kylie Minogue.
Medo: aranhas, vacas, dos dentes da Pepa quando era bebé, de ter brancas e não conseguir escrever, de falhar, de não viver tudo o que puder.
Música: Jorge Palma, Estrela do Mar.
Museu: Gulbenkian.
Passeios pela marginal a horas descabidas: Murphy Brown.
Passeios: com a Hortelã, a égua mais bonita do mundo.
Perfume: esta tem muito que se lhe diga... Ájax?
Pó-de-arroz: avó S.
Quedas: as do judo e as outras todas que se vão dando.
Risos tontos: Feiticeira de Oz.
Snooker: 11º ano (Exilada Migróide; Castrol; Varandas; Grava por cima).
Sorriso: primo F. Crescido.
Verão: a quinta e os primos.
Viver: todas as memórias que tenho e aquelas que ainda hei-de conquistar.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 02:47 PM | Comentários (2)

Saudades da Praia

Passo férias na mesma praia, em S. Pedro de Moel, desde que nasci. Para quem não conhece, S. Pedro é uma praia lindíssima, perdida no pinhal de Leiria, num perfeito encontro entre o campo e o mar.
A Feiticeira de Oz, a Morgana e a Bruxa Má também fazem deste local o destino habitual das suas férias.
É impressionante como se ganham manias à medida de que vamos sentindo algum espaço como nosso.
O grupo das famílias antigas fica todo na "terceira bandeira". Como dizia a Feiticeira de Oz ontem: "quando éramos adolescentes as outras duas bandeiras eram a nossa morte social." Risos e risos feitas tontas.
As sanduiches da família do lado são sempre melhores que as nossas.
Cá em casa gostamos da primeira fila de toldos, logo a seguir às barracas, que não fique próximo do intervalo para passagem de pessoas. Que passam por todo o lado, de qualquer das maneiras.
Às sextas e sábados não se vai à discoteca. O número de pessoas por m2 é proporcional à minha vontade de distribuir estalos cada vez que me empurram.
Todos os anos dizemos que vamos fazer a Volta dos Sete e a Volta dos Cinco, dois circuitos por mata nacional, lindíssimos, que não devo fazer a pé há pelo menos cinco anos. As outras bruxas e eu fazemos sempre planos no início do verão que acabamos por nunca concretizar.
E para todos os que conhecem S. Pedro de Moel, digam lá: haverá pôr do sol mais bonito? Não creio...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 11:29 AM | Comentários (12)

abril 15, 2004

Vários

Ontem à noite estive a pensar que o normal, neste mundo em que vivemos, seria que todos fôssemos terroristas, assassinos ou ladrões.
Fiquei mais descansada quando percebi que grande parte da humanidade é boa e luta contra a minoria de gente anormal que anda por aí.

Dia treze o Linhas Incertas fez um mês... Um mês cheio de surpresas: da aceitação que a minha escrita tem tido, do que tenho partilhado e de todo o apoio que tenho recebido. Aprendi que existe uma blogosfera e que qualquer analfabeto, como eu, destas coisas cibernáuticas pode ter um blog.
O Paulo Querido (que manda em nós todos) é mesmo um querido e tem uma paciência ilimitada para os inúmeros mails que lhe envio cada vez que o Linhas Incertas tem algum problema.

Odeio ver telejornais. Cada vez mais. Sim, é importante ter acesso às notícias, mas será que ver pessoas mortas, cortadas aos bocados e em vias de ser assassinadas, isto tudo enquanto estou em família a jantar, faz de mim uma pessoa mais informada? Não seria mais inteligente passarem imagens, que facilmente impressionam qualquer um, num horário em que quem as vê sabe aquilo com que conta?

A minha família tem muitos artistas. A prima I. descobriu que tem um pezinho no palco e surpreendeu-nos a todos com a sua vocação para o teatro. Estreia hoje a peça A Casa da Bernarda Alba, no Auditório Carlos Paredes. Que partas uma perna I.!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 07:45 PM | Comentários (3)

Sem tempo

Não tenho tempo para escrever por agora. stop.
Despedida da Bruxa Morgana há hora e meia. stop.
Vou para a praia carpir mágoas. stop.
Escrevo qualquer coisita à noite. stop.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 03:07 PM | Comentários (2)

abril 14, 2004

Bruxinha Morgana

A minha amiga Morgana vai amanhã embarcar numa nova aventura da sua vida. E nós, as outras bruxas todas, também. É que nunca estivemos assim separadas enquanto gang de bruxinhas. Já decidimos! Alguns dos nossos bruxedos vão ter que ser aí, na ilha perdida para onde a Morgana vai.
Esta bruxa é o entendimento de todas. Ou seja, como um ponto de partida para o bem estar geral. Quando está presente, é das mais discretas e quando não está faz falta como nenhuma.
Tem um coração grande, cheio de espaço para gostar de toda a gente. Às vezes parece que anda noutro planeta e que não ouve nada do que lhe dizemos, mas, quando menos esperamos, mostra que se interessa ainda mais do que aquilo que pensávamos e que está lá sempre para tudo o que for preciso.
A Bruxa Morgana e eu somos muito diferentes. Talvez não na forma de estar, mas em tudo o resto conseguimos compensar-nos de uma forma excepcional. Vai fazer-me muita falta. Ela sabe.
A bruxa gosta muito ler, dá as gargalhadas mais histéricas que eu alguma vez ouvi e adoro (mesmo, mesmo!) a cara doce que faz quando alguma coisa a enternece. Fica parada e parece que o tempo à volta dela pára, também. Ah! E canta, ai como canta! Às vezes vou (onde tu sabes bem) ouvi-la cantar e apetece-me dizer a todas as pessoas que estão à minha volta que ela é minha amiga. Fico tão orgulhosa!
E, olha minha querida, numa vida feita de encontros e desencontros eu tenho a certeza que esta vai ser uma diferente forma de nos encontrarmos. Assim, mais longe, mas não com menos ternura ou amizade.
Hoje o beijinho é para ti.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:13 AM | Comentários (6)

abril 13, 2004

Por caminhos incertos

Procurei-te em caminhos por onde sabia que não andavas, perdida entre bússolas e mapas e estradas secundárias, tão mal conhecidas. Escondi-me do caminho onde sabia que te podia encontrar, andei por becos e vielas, perdida até de mim. Deram-me as coordenadas erradas, perguntei, não me disseram nada, parecia que me queriam longe de ti.
Vi-te incerto, aparecer, de cabelo desalinhado, sorriso malandro, sem bússola, nem coordenadas e mapa de pernas para o ar. Disseram-me que andavas às escuras, que me procuravas e que também sabias que não andava pelos caminhos onde sabias que eu não podia estar.
Nas encruzilhadas da vida, em florestas de emoções, em mares de sentimentos eu vi-te chegar. Fizemos todo um caminho inverso, eu vinha de uma outra direcção e tu, tu não te querias partilhar. Como a maré deixa marcas pouco visíveis na areia, assim eu me sentia inundar. Com a certeza que em cada nova subida os limites da marca, já pouco nítidos, acabam sempre por mudar.
Pensa em mim como o vento que diz ser de ninguém, mas que carrega sempre o cheiro do mar. Como a primeira estrela solitária que aparece no firmamento nunca deixa de se ver, nem de se olhar.
Vi-te chegar, entre multidões de gente, essas perdidas sem o saber, a quem escapou o teu olhar. Que vê para além do eu que há em mim, bem para além do que eu gostava de te mostrar. Sei que o caminho que fazemos é bem mais longo do que o que vemos, mas que por agora não há espaço para amar. Gosto do toque das tuas mãos no meu cabelo ou como pegas nos meus dedos para simplesmente os enlaçar.
Tenho memórias que eu até já esqueci, mas que voltam sempre quando te encontro por aí, perdido tal como eu. Certezas incertas feitas de alguma saudade, da saudade de tudo o que não foi, mas que ainda não teve um fim.
Pensa em mim como o vento que diz ser de ninguém, mas que carrega sempre o cheiro do mar. Como a primeira estrela que se vê no firmamento nunca deixa de se ver, nem de se olhar.
Vejo-te partir de cabelo ainda mais desalinhado, com o mapa certo e uma bússola que te levará a mim. E sem sabermos um jogo do querer e gostar torna-se no torneio, não vejo outro fim. Sei que sabes que vês para além do eu que há em mim, bem para além do que gostava de te mostrar. Sei que o caminho que fazemos é bem mais longo do que o que vemos, mas que por agora não há espaço para amar.
A pouco e pouco encontramos uma estrada que, às escuras, nos mostra que andar sem mapa e sem bússola é melhor assim. Sem que nos digam direcções ou tempo a tomar, cada um sabe quanto leva, cada um sabe de si.
Vou continuar a procurar-te em caminhos por onde sei que não andas, perdida entre bússolas, mapas e estradas secundárias, agora tão bem conhecidas. Vou esconder-me do caminho onde sei que te posso encontrar, vou por becos e vielas e vou perder-me até de mim.
Mas pensa em mim como o vento que diz ser de ninguém e que carrega sempre o cheiro do mar. E como a primeira estrela que se vê no firmamento nunca deixa de se ver, nem de se olhar.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:42 AM | Comentários (5)

abril 12, 2004

O Amor nos Tempos de Cólera, García Márquez

Sara Noriega disse de uma maneira terminante: «Nós, as mulheres, somos adivinhas.» E pôs termo à discussão.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:46 AM | Comentários (2)

abril 11, 2004

A geração seguinte

A geração seguinte da família já tem alguns representantes. O Texuguinho foi o primeiro (10 anos), a seguir veio o Kiko Badamico (quase 3), o G. bebé (11 meses), o Gui (10 meses), a I. bebé (6 meses) e agora, ainda por nascer, o Peixinho (5 meses de gestação). A família tem o hábito de repetir os nomes através das gerações, o que me dificulta a tarefa de falar de todos.
Mudou muita coisa desde que o primeiro bebé nasceu. Por exemplo: ninguém se zanga se a casa estiver desarrumada e voltámos a ter horas para fazer as refeições. Há papas pela casa toda e o frigorífico tem sempre imensos iogurtes.
(Não estou a conseguir concentrar-me, o tio L., o D., a I. bebé, a P., o mano G., o Zé e a minha mãe não me deixam escrever nada.)
Passámos a ter cuidado ao andar, não vá algum dos bebés, ainda rastejantes, estar debaixo dos nossos pés. (Está tudo doido com a bebé I. por distribuir sorrisos a toda a gente, ainda é a única menina da geração dos bebés.)
Desisto, por hoje é mesmo só o que escrevo. Estão todos divertidíssimos e já estou com pena por não estar à conversa com eles. (Agora que disse que já tinha acabado, calaram-se todos...)

Publicado por Rosário Dias Diogo em 11:48 AM | Comentários (5)

abril 10, 2004

Por cá

As bruxas Má e Morgana fazem hoje anos. Um beijinho muito especial para ambas!

Coisas de que eu gosto aqui no Exílio:
- cheiro a relva cortada;
- barulho de loiça a tilintar na cozinha;
- barulhos dos primos mais novos logo de manhã;
- cheiro a pinheiros;
- barulho dos pássaros (diz o primo Texuguinho);
- dos jogos, dos disparates, dos filmes;
- "da piscina!" (diz o Texuguinho outra vez);
- dos doces, da mesa cheia;
- do mimo de toda a gente, onde quer que se passe há sempre uma mão estendida para nos afagar a cabeça;
- dos cães a correr por todo o lado;
- dos lamentos do primo F. (crescido) por haver sempre muito por fazer e ninguém o ajudar;
- das correrias do primo F. Crescido atrás de mim, a dizer asneiras;
- do tio Tó e da tia G. se levantarem antes de toda a gente (nem sei explicar porquê);
- dos sorrisos de alegria da Avó por nos ver todos juntos.

Coisas de que não gosto aqui no Exílio:
- que os primos P. e M.; J. e M. (e Freddy); D. e P. (e bebé I.) não cá estejam.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:13 AM | Comentários (3)

abril 09, 2004

Uma tarde com o Kiko

Primeiro começámos por tirar a comunidade de bichinhos-de-conta que resolveu suicidar-se em massa, atirando-se para dentro da piscina. Foi uma emoção perceber quais é que ainda estavam vivos.
- Este anda! - gritava animado o Badamico.- Zarinho, vai ali! E ali! E ali!
E a Zarinho, já com água pelo pescoço, a morrer de frio, lá ía salvando os bichinhos todos que podia.
Depois, juntou-se a mim e veio, ao meu colo, para dentro da piscina. Andámos de um lado para o outro, enquanto os outros primos crescidos jogavam "Risco". Começou a ficar ainda mais frio e viemos secar-nos cá para fora. Esta foi a conversa que tivemos:
- Tanhixoli, Zarinho, piyruitolimun cocodilo, dehajo da mãe kida.
- Pois... - digo eu com um ar muito entendido.
- Piruli, mais utinoi pica na mão.
- Ah! - Respondo sempre muito interessada.
A seguir foi um ataque de mimo. Estivemos encostadinhos, a cantar e a aproveitar cada milésimo de segundo da tarde lindíssima que esteve. Sabem aqueles momentos que não esquecemos nunca? Este foi um deles.
Viemos os dois lanchar e a Zarinho contou duas histórias: "A Bela e o Monstro" e "A Branca de Neve e os sete anões".
Esteve encostadinho ao meu colo até há cinco minutos, os outros primos vieram desafiá-lo para irem fazer asneiras (a Pepa, o G. e o T.).
Assim se passou mais uma tarde aqui no Exílio.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 05:39 PM | Comentários (1)

Conversas Trocadas

- Estou, tia G.?
- Sim, quem fala?
- Sou a F.!
- Olá, F.!
- Olhe, posso ir aí almoçar hoje?
- Hoje?
- Não dá? Está sem Elvira (empregada)?
- Mas quem fala?
- Sou a F., tia... Tia G. A. Vieira?...
- (risos) Não! É que eu também me chamo G. e tenho uma sobrinha F.. Só que a minha sobrinha vive em Inglaterra e eu não estava a perceber como é que ela cá vinha almoçar comigo hoje...
- Ai, desculpe, foi engano!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 09:35 AM | Comentários (1)

abril 08, 2004

Do Exílio II

Voltei a Exilar-me, desta vez para passar uns dias em família, em ocasião das férias da Páscoa. Nunca mais chegava um dos computadores que me permite aceder à Internet e já imaginava o Linhas Incertas abandonado...

- Ó Pepa!!!
- Diz, Borbulha Man!
Apresento-vos a Pepa e o G., os meus manos mais novos. São impossíveis, berram, saltam, mudam freneticamente de canal enquanto vêem televisão, mas a verdade é que a casa fica ridiculamente vazia quando não estão.
Passei parte da minha infância a jantar na cozinha "por causa deles". Bem, mais ou menos, a verdade é que eu os fazia rir de tal maneira com parvoíces que ninguém comia nada. Também aqui confesso: Mãe, todas as vezes que jantei na cozinha não comi a sopa!
Os meus manos mais novos e eu (tenho um irmão mais velho, o J.) passamos a vida às turras, mas não tenho vida sem eles. Quando estive a estudar fora, durante um ano, foram de longe quem mais me fez falta. O barulho, os passeios para irmos comer um gelado, as conversas tontas que ainda hoje temos à hora do jantar, as discussões por causa da roupa (entre a Pepa e eu), e outros momentos que só quem tem irmãos entende.
Passam a vida a tentar irritar-me por causa do blog, também porque literalmente os expulso do computador, mas já percebi que cá vêm ler às escondidas.
Por tudo isto e muito mais, hoje o beijinho é para os meus três irmãos: J., Pepa e G..

Publicado por Rosário Dias Diogo em 06:17 PM | Comentários (1)

abril 07, 2004

O Amor nos Tempos de Cólera (García Márquez)

Num certo domingo, dois anos depois de se conhecerem, a primeira coisa que ela fez quando ele chegou, em vez de despi-lo, foi tirar-lhe os óculos para beijá-lo melhor e foi dessa maneira que Florentino Ariza soube que ela começara a amá-lo.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:33 AM | Comentários (5)

abril 06, 2004

Destino

Perguntei ao vento, pelos caminhos da vida, se haveria outro destino para o que esperavam de mim. Disse-me que não, que o destino que eu escolhesse era aquele que me tinha sido dado para percorrer.
Fui então à lua, onde me esperava o escuro, disse-me em tom de sussurro: o teu caminho diz-te o teu coração. Mas o sol, com ar grave e muito solene, respondeu-me assim: Jamais! Entrega-te à razão.
Perdida entre tanta gente, que tinha tantas certezas, sentei-me perto da água que me disse sem eu lhe pôr a questão: O caminho de cada um faz-se a cada passo da vida. Não corras, para não tropeçar. Não andes devagar para ninguém te ultrapassar. Leva o teu tempo, ajudam-te o sol, a lua e o vento e verás que o teu destino, mais do que uma escolha só tua, é para ser vivido como cada pegada que deixas atrás de ti...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 08:00 AM | Comentários (8)

abril 05, 2004

Rituais do ó ó

Faço babysitting há uma série de anos e a hora de ir para a cama, independentemente das idades das crianças, é sempre dotada de momentos especiais.
Kiko Badamico: adormece ao nosso colo, a beber leite com chocolate; ou encostado a um dos primos; ou com alguém deitado ao lado dele na cama. Mas sempre agarrado a uma fralda de pano a que chama padinha e a chuchar na língua. Gosta de músicas e histórias. Demora imenso tempo até adormecer mas, quando adormece, não há barulho que o acorde. Nem quando chega à casa de família e tem vinte e tal pares de olhos à espera que ele desperte para o apertarem.
Madalena (10 anos) e Marta (8): "Já? Mas eu ainda quero ver a telenovela." A Marta sobe as escadas pendurada nas minhas pernas, a Madalena vai a dançar e aos pulinhos. Lavar dentes, pentear, sempre a conversar sobre a escola. A Madalena agora já me pede para a ajudar a escolher a roupa para o colégio novo. "Fica bem?", abre muito os olhos e acredita plenamente na minha opinião. Deitam-se na cama, a Marta fica sempre muito pensativa antes de dormir. Pede-me para rezar, rezamos as três e ainda há tempo para uma música. Beijinhos, vou para a sala. Sei que invariavelmente, quinze minutos depois de as deitar, a Madalena tem dores de cabeça. Tic, tic, tic. Oiço os passinhos, sorrio. "Rosarinho, dói-me a cabeça!", "Venha cá abaixo que leitinho com chocolate ajuda a passar". Bebe o pacote de leite encostada a mim, diz que está melhor e volta para a cama. Sempre.
Maria (12), Simão (9), Sebastião (7), Santiago (2) e Salvador (8 meses): sim, são cinco, contaram bem. A hora de ir para a cama é ligeiramente mais confusa nesta casa. Primeiro, nunca nenhum quer ir para a cama e convencer quatro crianças e uma pré-adolescente requer um discurso de campanha eleitoral. Deito primeiro o Santiago, sempre com o Salvador pendurado ao meu colo. Fica na cama, normalmente pede água e mesmo que não adormeça fica quietinho até chegar o João Pestana. A seguir, a tarefa árdua, rapazes e Maria. Pego em dois braços, risos e risos, "Vá agora tem mesmo que ser. Tenrinhos para a cama!" São literalmente arrastados pelas escadas acima, vou gritando "Maria, já cá para cima" e tudo sempre com o Salvador ao colo. Lavam os dentes, empurram-se, dizem disparates. São os meus babysittandos mais antigos, conheço-os desde bebés. Deitam-se na cama, levantam-se, vão buscar brinquedos, enfim! Lá consigo que se deitem, beijinhos. Já só faltam dois. Entretanto a Maria lavou os dentes e pede sempre o mesmo: "Posso ficar mais um bocadinho lá em baixo contigo?". Descemos os três as escadas, a Maria vê televisão enquanto aqueço o leite do bebé. "Vá, para a cama." Subo com ela, "beijinhos".
Pronto, agora o mais complicado. É que o Salvador é uma peste para dormir. Bebe o leite, olha para mim e ri-se. "Vá bebé, vamos dormir". Embalo-o, sento-me, levanto-me, canto, não canto, mas o Salvador cada vez que se sente adormecer enche os pulmões de ar e berra animadamente. "Ai, os outros quatro!", penso eu.
Finalmente adormeceram todos, vou vê-los e olhar com mais calma para cada um. Festinhas, "estão crescidos". Apago as luzes, vou eu comer qualquer coisa e esperar que os pais cheguem.
O meu ritual do ó ó demora bem menos tempo, mal chego a casa deito-me na cama e adormeço. Ferrada!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:11 AM | Comentários (3)

abril 04, 2004

Pininha

A Pininha é a minha amiga mais antiga, conhecemo-nos no infantário quando tínhamos três anos. Foi amor à primeira vista, muitas das fotografias que tenho lá tiradas já enquadram uma cara branquinha com olhos azuis enormes, sorriso malandro e cabelo loiro.
Da minha amiga, nem sei bem que vos diga. Há bocado disse-me assim: "Sabes, apetece-me viver!". Minha querida, nem sabes o quão importante foi ouvir isso. Ninguém vive por nós e, vinda de ti, esta frase teve um sentido muito especial. Aliás, a Pininha é toda ela especial. Especial nas palavras que usa, especial na maneira como se veste e como trata as pessoas, especial na forma como se ri e, acima de tudo, é um ser humano especialmente bonito.
Não imagino a minha vida sem os nossos intermináveis silêncios no carro, sem o teu riso que me faz rir mesmo se estiver zangada, sem essa tua inocência tão perfeita, sem esse teu brilho que nos mostra a todas o que é ser uma senhora.
Querida amiga, aqui ficam umas palavras. Mais não se diz, sente-se. Tenho a certeza que já te tinhas perguntado porque é que ainda não tinha falado em ti, mas nem sempre escrevo sobre aquilo que quero, a inspiração manda!
Hoje foste tu a musa...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 06:51 PM | Comentários (2)

abril 03, 2004

Do Exílio

Toca o telefone. É a Muphy Brown. Atendo, não a oiço, esqueço-me sempre que aqui não há rede dentro de casa.
- Olá! Cineminha hoje?, pergunta-me ela.
- Não dá, vim para o Exílio... Que tal amanhã?
- Amanhã não dá... Exilo-me eu! - (risos das duas)- Olha, não imaginas...
Enquanto a Murphy fala vou olhando para o jardim, a morrer de frio, passeando lentamente. Olho para o chão, vejo um caracol esmigalhado. "Oh, não! Caracóis!" Tenho esta coisa com caracóis, sinto-me sempre uma espécie de salvadora, tenho que os tirar a todos de todo o lado onde possam ser pisados. Ok, como diria a minha irmã, sou tarada.
Apanho uma caracoleta, olho para o lado e vejo um caracol bebé, "tão querido!", vejo outro e outro e ainda outro, isto tudo enquanto falo com a minha jornalista preferida.
Já me aconteceu estar em Lx, apanhar caracóis no meio do passeio e pô-los em jardins. É mais forte que eu, acho que são umas criaturas tão simpáticas que me dá para os salvar a todos de humanos mais distraídos.
O Exílio é para onde venho aos fins de semana e férias, com a família toda. Aqui não há tempo e o vento cheira a pão, a jasmim e a alfazema.
- Jura?!- vou conversando com a Murphy- Não posso acreditar!
Este sentimento em relação aos caracóis é precisamente o oposto em relação às aranhas. Apetece-me pisá-las a todas... Aguento-me e não o faço. Sempre... Grito, berro e fujo, normalmente. Enquanto passeio pelo jardim vou tomando atenção a ver se não piso nenhum caracol e se não vou contra nenhuma teia de aranha. Não é fácil!
- E depois, o que é que disseste?- pergunto eu.
É deste jardim e desta casa que tenho as melhores recordações do meu crescimento. Cada canto tem uma história, cada árvore um arranhão marcado na minha pele, cada cheiro um verão diferente.
- Certo, quando chegar a Lx, ligo-te.
Inspiro uma última vez antes de entrar na sala. "Casa", digo para mim. E não há sentimento melhor no mundo do que este, o de sentirmos que há um espaço no universo que sendo de tantos é um bocadinho só nosso.
Ah, ainda salvei outro caracol antes de abrir a porta.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 05:38 PM | Comentários (4)

Esperança, Miguel Torga

Canto.
Mas o meu canto é triste.
Não sou capaz de nenhum outro, agora.
Em cada verso chora
Uma ilusão,
Tolhida na amplidão
Que lhe sonhei...
Felizmente sei
Cantar sem pressa.
Que sei recomeçar...
Que sei que há uma promessa
No acto de cantar...

Publicado por Rosário Dias Diogo em 08:00 AM | Comentários (1)

abril 02, 2004

Já está!

Já me fartei de rir com as queixas ao "não-post" de hoje. Costumo deixar sempre qualquer coisa escrita no dia anterior, menos ao fim-de-semana, mas ontem cheguei a casa tão cansada que nem pensei nisso. É que escrever todos os dias é complicado. E nunca pensei que fizesse já parte da rotina de alguns.
Prometo que não volta a acontecer! É uma responsabilidade animar ou deixar a pensar os leitores do Linhas Incertas logo de manhã.
Querida Murphy Brown: estou muito orgulhosa de ti, és a melhor jornalista do mundo!
Um bom dia de trabalho para todos!

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:32 AM | Comentários (2)

abril 01, 2004

Prémios para Blogs

Olhem, recebi um prémio! Juro, não estou a brincar. A Jacky, do blog http://palavrasemferias.blogs.sapo.pt/, tem atribuído prémios a todos os blogs que se manifestem e o Linhas Incertas ganhou o prémio das Palavras não-ditas, mas sentidas. Que honra! Obrigada, Jacky, e que a tua mãe recupere rapidamente.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 10:16 AM | Comentários (5)

Querida Márcia (e não só...):

O amor passa por nós, por nós todas num instante. Na brevidade de um sonho, como um novo ou velho canto. Deixa-nos plenas e tão vazias no momento em que arrebata, que quando parte deixa memórias que doem sem que lhes toquem.
Mas o Amor, que a todos espera, dura bem mais do que um segundo, esse dura a Vida eterna. O Amor tão completo e estranho, que dá a vida à morte e que quando não estamos à espreita, nos leva todos os medos de quem pelo Amor anseia.
Vai soprar-te ao ouvido, bem baixinho: Cheguei e agora és minha. Para toda a nossa Vida.
E nas encruzilhadas do caminho, quando o teu Amor chegar, saberás que ELE também é teu e que agora é que é Amar.

Publicado por Rosário Dias Diogo em 08:00 AM | Comentários (2)