O meu Destino disse-me a chorar:
- «Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.»
Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sono desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...
Mesmo a um velho eu perguntei: - «Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?»
E o velho estremeceu... olhou... e riu...
Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos para trás desanimados...
E eu paro a murmurar: - «Ninguém o viu!...»
P.S. - Querida Annie Hall: tem toda a razão! Gosto mesmo muito de Florbela Espanca, mas a minha visão do amor é mais romântica e acredito que, neste soneto, a poeta andou a perguntar às pessoas erradas se tinham visto o Amor...
Fogem-me palavras não ditas, em linhas perdidas, em caminhos distintos.
Procuro-me em quem já não sou, entre aquilo que digo e tudo aquilo que sinto. Vivo assim, tão plenamente, entre o que se diz e o que se sente, que mesmo quando uma palavra me mente eu finjo que não é comigo.
As palavras têm forma, vida, cores só por elas. Tomam tamanhos absurdos, são céu e terra, são água e labaredas.
Algumas palavras não existem ou não se conhecem, ficam por dizer. Outras gastam-se em enganos de encontros que nem nos chegam a viver.
Posso ter perdido todas, tê-las dito sem querer. Em batalhas de sons confusos, em acalmias, tempestades. Em quem eu não quis, em quem não me quer.
Mas em cada silêncio vivo há em mim palavras que não percebo, não têm nome. Vivem de sentimentos calados no que permanece de mim incólume. Nos toques, nos olhares e no amor que em ti deixei ficaram todas as palavras que contigo nunca viverei.
E na distância do que é sentido e de tudo o que nunca se chega a viver, restam todas as palavras que ficam por dizer.
Pois é, já aqui uma vez falei na Bruxinha Magali. Do Gang das Bruxas fazem também parte a Maga Patalógica, a Morgana, a Bruxa Má, a Feiticeira de Oz e eu, a Hermione (adoro aqueles cabelos!)
Somos amicíssimas, indiscutivelmente sempre divertidas, e com um sentimento de protecção umas em relação às outras fora do normal. O que vou aqui contar acontece algumas vezes, tendo em conta que somos seis.
X = uma das bruxas;
Y = interesse masculino de uma das bruxas;
XXXXX = as outras bruxas.
Muito bem. Imaginemos que o Y da Bruxa Má foi sair para uma discoteca para onde não nos apetece ir. Não importa. Mas, e se alguém quer ir para casa? Também não importa. Mesmo sem conversarmos, basta a Má dizer que quer ir a tal sítio para o Gang ir todo atrás. E sempre divertidas, mesmo que estejamos podres. É o Y. E se for o homem da vida dela?
E bem, lá vamos todas e só nos vimos embora quando, neste exemplo, a Bruxa Má nos fizer sinal. Não sei bem explicar isto, nunca foi falado a sério, foi uma coisa que foi acontecendo e que nós nem sequer pomos em causa.
X - Y
XXXXX - apanhar uma seca
Mas não é só em relação a Y's. Quando alguma está mais triste passa a semana a receber telefonemas das outras, ou mails, ou convites para tomar café. E não precisamos de estar a noite todas juntinhas para sabermos que estamos em grupo. Coisas de bruxas...
Uma coisa que me preocupa é se um destes dias formos sair e cada uma lá tiver o seu alfabeto de Y's... Ui! São seis idiomas diferentes!
Amiguinhas, eu disse que esta semana falava sobre nós. Olhem, não revelei muito, pois não? Um beijinho para as minhas bruxas preferidas.
Gosto de dias incertos. Quando chove e não chove, faz um bocadinho de frio mas também faz calor, quando o tempo pára para nos dizer que às vezes também não sabe bem o que quer.
Prometo sempre a mim própria que não escrevo aos domingos... O que é que hei-de fazer? Dá-me sempre para isto!
Mas hoje não escrevo mais. Deixo no espaço em branco tudo aquilo que fica por dizer.
Um bom domingo cheio de Incertezas! E de algumas certezas, também.
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
muito mais pura
E muito mais nova...
O Rodolfo tem caracóis loiros, olhos castanhos e é baixinho. Ah, e tem quatro patas, mas essa parte até nem interessa nada para a história. O Rodolfo faz parte da família há treze anos, o que significa que, há este tempo todo, temos uma fonte ambulante de mimo cá por casa. Mas não se enganem... O Rodolfo tem muito mau feitio. Para já, odeia que o tratem como se fosse um cão. Não gosta de se levantar cedo, nem que o levem à rua às sete da manhã. É de chorar a rir observar os esforços inglórios da minha irmã a perseguir o cão pelas camas da casa. Porque o Rodolfo não tem uma, mas quatro camas à sua disposição. E é uma verdadeira guerra, mais entre a minha mãe e mana, para ver com quem é que o cão dorme. Cão? Desculpem, o Rodolfo.
O Rodolfo não gosta de ter o prato dele vazio e acha um disparate ter que comer uma comida diferente da do resto da família. Adora pizza e fruta. Se lhe derem cinco minutos de atenção e até lhe coçarem a barriga, vai de certeza buscar um dos cinquenta brinquedos que tem numa caminha de cão, a que a minha avó chama alguidar, que é realmente o que mais lembra.
O Rodolfo agora ouve menos bem... (e não consigo escrever isto sem ter um sorriso estampado na cara) Passada meia hora de eu (ou qualquer outro familiar) chegar a casa aparece um Rodolfo animadíssimo com aquele focinho que diz: "Ó dona! Já chegaste?" É tão querido!
O Rodolfo não dá confiança a cães, até porque por ele não faz falta mais nenhum aqui no bairro. Adora discutir com duas cadelas que moram no prédio e odeia, mas odeia mesmo, ficar sozinho em casa.
Como melhores amigos tem o D. Fuas, o Freddy e a Brites. Também gostava muito, muito do Bug que foi há pouco tempo morar para o céu dos cães, ali ao lado da casinha de S. Francisco de Assis.
E, olhem, se não tivesse que ir trabalhar ficava aqui o dia todo a escrever sobre o meu cão.
Hoje o beijinho especial é para o Paulo e para a Marlene, e para todos os que têm um amigo de quatro patas.
A Annie Hall tem no outsider umas fotografias giríssimas dos cães dela. Uma festinha para eles também!
Gosto do mar. Gosto de amar. Gosto de azul, de flores e de dar. Gosto de
amigos, de noites sem tino, de conversas perdidas ouvidas no ar. Gosto de
cozinhas, bem cheias, quentinhas e de bolos de laranja acabados de cozinhar.
Gosto de beijinhos, dos dos meus sobrinhos ou daqueles bem meigos que não
se faziam esperar.
Gosto de pinheiros, de plátanos, de sobreiros e da paz interior que me dá o
luar.
Gosto de correr, sem destino, pela areia. Gosto de abraços, de sorrir e de me dar.
Gosto da vida, de viver, de ser querida, de ser menina e mulher, gosto de
não saber o que esperar.
Gosto de escrever. Gosto de silêncio e gosto de estar sozinha quando não
tenho nada para dizer.
Gosto de gostar. Gosto de viver.
Gosto.
"Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar."
Gosto muito de pormenores e coincidências porque me fazem pensar acerca da existência humana. Quando andava na faculdade, aí no segundo ano, a minha turma de latim era enorme, pelo que nem sempre podia ficar ao lado das minhas amigas por não haver lugares suficientes para todas. Comecei a ficar entre dois rapazes, o Marco e o Ricardo, muito simpáticos e divertidos. Tornou-se rapidamente um hábito e por acaso, ou de propósito, havia sempre um lugar ao lado deles guardado para mim. Eram duas pessoas que tinham pouco a ver comigo em termos de gostos ou escolhas mas, a verdade é que houve uma afinidade especial entre nós, logo desde o início. É importante perceber que muito raramente nos encontrávamos fora da sala de aula e que, pelo facto de estarmos a ter uma lição, não podíamos falar muito.
Uma vez, a meio de uma aula, calhou em conversa as datas do nossos aniversários. O Ricardo fazia anos a 13, eu a 14 e o Marco a 15 de Março.
A vida tem com cada coisa... Lembro-me de ter ficado impressionadíssima. Não foram aquelas duas pessoas que me marcaram. Foi a situação. Mas porquê? Senti que, de alguma maneira, os nossos caminhos tinham que se cruzar. Nem que fosse durante um semestre, na faculdade. Nunca fui muito de pensar na influência dos astros ou dos signos. Esta história ou é uma coincidência fantástica ou uma prova em como há mais afinidades que influenciam as relações humanas do que aquelas visíveis.
E, talvez, também tenha sido para que, quando eu tivesse oportunidade, pudesse escrever acerca de coincidências e destinos.
Nunca mais vi nem o Marco, nem o Ricardo. Tenho pena. Quem sabe se, mais à frente na vida, não estará destinado encontrarmo-nos uma vez mais? Quem sabe...
O André foi um querido e parou de trabalhar para me ajudar a configurar a página do blog. Ficou tão gira!!!!!!
Muito obrigada a ti, André, e a todos os que trabalham na MrNet pela simpatia e profissionalismo.
O Francisco ainda não tem três anos e já me arrebatou a vida. Aliás, nem tenho vida sem a dele. É filho de um dos meus primos mais velhos, e sinto-o cá dentro como um verdadeiro sobrinho. Ah, e levo muito a sério este papel de prima-tia. Não há amor mais perfeito, mais dado sem troco do que este que sinto por aquela criatura de palmo e meio. Ele diz: "Zarinho" e eu já estou lá ao lado. A verdade é que ele nem precisa de o dizer, porque a vontade de o abraçar, agarrar, beijar, apertar é tal que é impossível estar muito tempo longe.
Vou buscá-lo ao infantário. Ainda nem o vi, dou com dois bracinhos minúsculos a virem a correr na minha direcção. Se eu transbordasse de orgulho, aquele páteo ficava inundado.
Parece perceber sempre quando preciso de mimo eu também e, nesses dias, não sai do meu colo, dá-me os abracinhos mais amorosos que se possam imaginar e aqueles beijinhos lambusados são demais...
O Kiko Badamico está a crescer a pouco e pouco. Vê-lo assim, já mais independente, deixa-me a mim mais vulnerável. Qualquer dia fica envergonhado por ir a marchar e a cantar pela rua com a tia. E depois deixa de precisar de quem tome conta dele... Mas mimo, mimo nunca vai deixar de ter. Mimo a qualquer hora, mimo todo aquele que ele quiser.
E enquanto for o meu Francisco bebé (mesmo crescido!), que gosta de autocarros e tractores, de colo da tia, de leite com chocolate, de andar de metro a dizer "Tota terra uhhhh uhhh" e de ir ao saltinhos pela rua, eu nunca vou estar cansada, nem triste, nem desanimada, porque a existência deste sobrinho-primo basta para me mostrar o quanto é bonito viver.
Para mim, vai ser sempre o meu Bichinho-de-Conta. Mesmo quando ele crescer.
Hoje fica um beijinho para a família mais bonita do mundo. A minha.
Perguntam-me muitas vezes em que é que me inspiro para escrever contos ou textos. Tendo a perfeita noção de que não tenho maturidade literária para me afastar da pessoa que sou, digo também que é um erro identificar a todo o custo a obra com a biografia do seu autor.
O ser humano tem tendência a absorver as vivências daqueles que estão à sua volta, ou seja, quando escrevo sobre, por exemplo, a minha dor, já não sei se é a minha só, a minha e a da x pessoa ou a da humanidade em geral expressa por palavras minhas.
Tinha prometido a mim mesma que aos domingos "descansava de blog", mas confesso que tive uma irresistível vontade de escrever, ainda que não sobre este tema. Como não fui capaz, ainda, de escrever sobre aquilo que queria (ainda estão os pensamentos em ebulição) aqui fica a minha partilha de hoje, que é, aliás, um dos temas que mais me faz pensar acerca da escrita.
Já dizia Fernando Pessoa (criador do semi-heterónimo Bernardo Soares):
"O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente."
O nosso blog tem uma semana! Estou tão orgulhosa!
Obrigada a todos que têm tornado esta experiência fantástica e que me têm dado alento para escrever todos os dias.
Prometo que, quando o Linhas Incertas fizer um mês, escrevo um "obrigada" mais bonitinho e mais extenso.
Desde já um agradecimento muito especial aos comentadores mais assíduos, à Annie Hall, à Raquel e ao meu querido amigo Tenro.
Um bom dia de sábado!
Todos os dias ando de metro. Adoro a sensação de ir sozinha no meio de uma multidão que se sente sozinha também. Sinto-me bem ao ir distraídamente a observar o que se passa à minha volta ou, então, a ler.
A semana passada entrei no comboio como já o tinha feito pelo menos duas vezes nesse dia. Procurei onde sentar-me, nem sou muito exigente. Estava um senhor a ler sem ter ninguém à volta e sentei-me ao lado dele. Estávamos os dois entretidos, não tinha que haver silêncios incomodativos nem saber onde pousar o olhar. Na estação seguinte entrou uma senhora, também ela de livro na mão que se sentou à nossa frente. O comboio ia cheio, eu conseguia ouvir conversas perdidas no ar mas, durante aqueles cinco minutos, aquelas duas pessoas e eu estivemos no mundo imaginário dos livros que lemos.
Cheguei ao Campo Grande, mudei de comboio e quando procurei onde me sentar lá estavam a senhora e o senhor sentados no mesmo banco a ler. Outra vez. Sentei-me discretamente e senti-me, estranhamente, em casa.
E também senti que o acaso e a coincidência são pormenores que dão uma cor diferente a hábitos do dia a dia.
Deu-me que pensar.
"Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!...
-E que tragédia acreditar nela! "
O texto de ontem despoletou uma violenta guerra entre lágrimas e ranho cá por casa... Como este blog não é, de maneira alguma, um sítio para nos sentirmos tristes, aqui vão uns quantos acontecimentos verídicos. Ainda que alguns sejam dignos de filme...
No ginásio onde estou a trabalhar há imensos brasileiros. As meninas que dão as toalhas têm o nome delas, juntamente com o da empresa para a qual trabalham, numa placa presa às camisolas.
-Oi, como é que você se chama mesmo? - pergunta-me uma delas.
-Eu sou a Rosário! E tu? Ah, deixa ver, és a Vital. A Vital Limpa!
Escusado será dizer que a criatura se chama Gleuciane e ficou a achar que eu era profundamente anormal.
Também lá no ginásio e à conta de um dos treinadores que minutos antes tinha estado a gozar comigo.
Vem ter comigo um senhor aí de cinquenta anos, bem posto e distinto.
-Olá! Já conhece o "produto X"?, pergunto eu com cara de parva, -Há duas qualidades: melão e chá verde, do meu lado direito e guaraná, chá e frutos eróticos, do meu lado esquerdo.
EU DISSE FRUTOS ERÓTICOS! Estive a rir-me durante quinze minutos e, felizmente para mim, o senhor também...
(Provavelmente vou ser despedida)
Quando apareceram os primeiros telemóveis a minha mãe teve o seguinte monólogo com os meus irmãos e comigo:
-Estou à espera que me telefonem cá para casa, mas preciso de sair. E se eu deixasse o telemóvel em casa e levasse o portátil do número fixo?
A minha amiga Murphy Brown e eu gostamos imenso de praia. No verão, mesmo ao fim da tarde, muitas vezes metemo-nos no carro e vamos dar um mergulho. Numa dessas vezes, a Murphy veio directamente do trabalho e pediu-me um biquini emprestado. Nem tenho palavras para descrever a situação. Bem, Carcavelos às cinco da tarde, dia de semana. A Miss Brown e eu a vestimos os biquinis no carro (já de si hilariante). Passo-lhe o biquini que lhe emprestei, daqueles cuja parte de baixo tem duas fitas para dar um laço. Desapertei uma das partes para ser mais fácil ela vesti-lo. Quando olhei a Murphy tinha a parte de baixo do biquini enfiada na cabeça e tentava dar o nó atrás das costas...
- Ó Rosarinho! Como é que isto se veste?
Obrigada, Murphy Brown, por me teres feito ter o maior ataque de riso da minha vida.
Acordo. Olho em volta. Já cá não estás. Foi mais uma das tuas entregas, não percebo porque é que me falas assim. Sento-me na cama, tenho a cara molhada. Procuro-te mais e mais, mas já não estás aqui. Luísa solta-te. Assim não consigo que estejas em mim.
Ainda cheira a alfazema.
Entrou na minha vida devagarinho, era mais velha, amiga de amigos. De beleza imprópria, jeito simples, sem ambição a mais que fosse, conquistava a vida com um sorriso. E entrou, entrou assim tão devagarinho. Não me pediu muito. Calma, tranquilidade, um ombro amigo. De paixões arrebatadoras e amenas. Era só, tão só, ela.
Saio do quarto. Estou cheia de ti. Sei, quando me olham, que sou uma memória tua. Luísa sai de mim. Quero gostar de ti agora. É que voltas, voltas sempre. Olhas-me e perguntas como está tudo em mim. És tão viva que me dói. Por favor, Luísa. Sai daqui.
Deu-se cedo à paixão. Não falava muito nisso, mas eu sentia-o. Era ele, ela sabia. Amou-o sempre de forma discreta, com um sorriso meigo, uma vida aberta.
Dava-se ela a toda a gente. Sorria com os olhos, estava sempre presente. Sem preconceitos, impulsiva, de mente ágil, ingénua, artista. Era mais que alguém querido, bem mais que uma amiga.
Vim ver-te. Hoje é diferente. Estás aqui tão indiferente que não te procuras em mim. Dou-te flores, nem me olhas. Vejo almas, claras, tantas. Não me mostras a tua. Não percebes... Assim não consigo. Não sabes que não vivo contigo em mim? Morres para todos, como é que lhes explico? "Ainda ontem a vi. De camisa branca, no meu quarto. Ah, mandou-vos beijos, perguntou-me por todos. Cheirava a alfazema."
O carro dela era o nosso espaço. Todas as terças, no semáforo, quando ficávamos à espera. As saudades desse tempo eterno... As vontades e sonhos, vias mais em mim que os outros e acreditaste sempre, sempre que a minha vida tinha um especial fim.
E os lanches, os risos, os choros. As danças, caminhos, os olhos. Os cheiros, maneios, trejeitos.
Há já tempo que ando para te falar. Quando me apareceste pela primeira vez foi só para me confirmares que te tinhas ido embora. Não me disseste antes, decidiste assim, por ti. Fiquei zangada, tão zangada que por um mês te matei em mim. Mas não morreste.
Nas primeiras visitas eras má. Dizias que voltavas, que te tinhas ido zangada e que estavas para ficar. E eu chorava, porque quando acordada te procurava percebia que me andavas a enganar. E doía, Luísa, ai como doía.
A última passagem de ano que passámos juntas, num mesmo espaço físico, foi a confirmação de uma grande amizade. Que se fez de pequenos momentos, inseguranças, intimidade. Trocámos roupa, segredos e toques. Tínhamos a vida toda a nossa frente. Dizia-nos avancem, sejam gente, façam-se nos sonhos que sonham ter.
Nos meus sonhos estás sempre bonita, és mulher e és feliz, ainda que não o queiras ver. Tens que perceber, Luísa. A vida mudou.
Estudámos juntas a minha viagem, quando fui estudar para Paris. Não percebi que era uma maneira de se afastar sem dar contas a ninguém. Não me despedi, não me disse adeus.
A dor sentida foi muita, mas a pensada, essa então, não tem medição. Sentia-a partir e nessa mesma tarde soprou-me ao ouvido "morri". Estava ali, ao meu lado, mas para não mais sair.
Depois zangámo-nos. Foram meses sem a ouvir... Pensas que podes voltar assim, num sopro, chegando-te outra vez a mim? E eu, Luísa? Como é que lhes explico? "Ah, vejo-a imensas vezes, pergunta-me por todos".
Gosto muito. Gosto mesmo de te ver. Sinto ainda mais o quanto me fazes falta. Mas sempre que partes fica novamente o vazio, a mágoa, a dor. A raiva, a ira, a tristeza, o choro... o sorriso. E já cá não estás para me abraçar. Fico só.
Dá-me o tempo. Dá-me o tempo de nos ver outra vez rir, só me vejo chorar.
Morreu quando eu não estava. Não esperou sequer por mim. Não me avisou, deixou-me partir na ingenuidade da eternidade daqueles que sinto em mim. Não me disseram, eu senti. E zanguei-me, zanguei-me tanto que nem vi que ela esteve sempre ali.
Aparece-me muitas vezes, ao princípio má, zangada também ela. Agora mais só, mais velha, mais calma quer conversar, mas eu tenho tanto medo dela. E assim fico, nunca só, sempre com a Luísa. Que se deixa ver em dias quando eu nunca estou à espreita. Dá-se toda, toda ela. Sei eu bem que, um dia, vou conseguir dar-lhe em vida aquilo que ela ainda queria viver.
E olha, minha amiga, não te zangues se mais uma vez te pedir para não apareceres. Deixa o canto das minhas lágrimas dar vez ao meu sorriso. Deixa a vida fazer sentido sem as nossas terças-feiras, sem os sonhos de meninas, sem aquelas nossas cantigas, sem ter medo de viver.
Guardo-te em quem sou e sinto-te até sem te ver. Mas não te zangues, Luísa querida... não me vou deixar esquecer.
Ontem e hoje já não veio. Voltou a partir. Sei que o fez por respeito, mas também sei que a saudade a vai fazer voltar.
Hoje vi sorrisos e cores. Vi vento, pássaros, flores. Vi por ela e vi por mim.
Um dia destes, a minha amiga, que me cheira a alfazema, vai voltar, vai voltar para estar aqui.
E aí vamos falar, sorrir, sonhar com a vida, ó Luísa querida, com a vida que eu vou viver por ti.
Para a Elsa, a minha querida amiga.
Há momentos que não se compram, que não têm hora, nem idade e que vivem de alguma saudade de quem não se deixa ver.
Há ternuras tão discretas que se sentem cá no fundo, não deixando as indiscretas imaginar que existem tais sentimentos em efémera e acesa disputa.
Há silêncios mais falados do que textos interpretados, mais sentidos que dor forte, mais dançados que canções.
Há olhares que trazem vida. Cheiros que a memória não perde, que voltam quando o tempo nos mostra que sensações ninguém as esquece.
Há quem viva, quem me viva e quem me saiba viver. Há quem me viva e nem o saiba e eu, vivida, nem o queira saber.
Há amar e ser amado.
E há a ténue linha de um amor que não o sendo, já o é, em promessas de cumplicidades. Mesmo que não se deixe ver.
A minha amiga Bruxinha Magali insiste em que conte a nossa aventura de sábado à noite. Ela fartou-se de rir, eu fiquei algo preocupada. Mas a bruxa não desarmou o circo.
Bairro Alto, cheio de gente, amigos de amigos.
"Olá! Conheces a J, certo?"
"Conheço", respondo eu.
"Ela é estranha, não é?" pergunta ele. E eu, conhecendo esse desenho-animado a quem chamemos J, disse que sim. Pior, desanqueia-a verbalmente e, não contente com isso, disse que era com certeza um problema de família, visto que a mãe também não me parecia muito certa. Mal o rapaz vira as costas a minha amiga BRUXA disse-me que ele era primo dela... Dá para imaginar a minha cara? Estive quinze minutos sem olhar para o tal rapaz que tinha conhecido naquela noite. Ele também me tinha dito mal da suposta prima. Mas uma coisa é a prima. Outra coisa é a mãe da prima, a TIA!
Bem, não eram nada primos, a minha amiga bruxa fartou-se de rir e eu fiquei meia aparvalhada com a história toda.
Magali: espero que caias da vassoura e partas um braço.
P.S.- Não esperas pela demora...
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro que vai surgindo.
Que há-de partir também... nem eu sei quando...
Quando a minha mãe canta, ainda hoje, o mundo pára. Não há dor, tristeza ou mágoa que vença esse canto. Quando a minha mãe canta.
A minha mãe canta e encanta, qualquer um que lhe esteja ao lado, canções de bebés ou fado, ópera ou em desafinado, deixa a casa cheia de vida e a minha alma, inundada de emoções.
Quando a minha mãe canta lembra-me o colo de outros tempos, papas, chuchas, unguentos, cheiros e mimo sem fim.
Ainda quando o mundo estremece, esse mundo de mãe e filha, uma simples nota, de qualquer cantiga, faz esquecer zangas sem sentido...
E às mães que ainda vos cantam, assim mesmo com filhos já crescidos, deixem-nas cantar, não há amor que seja mais bem ouvido.
À minha, às vossas, a todas as mães que nos fazem sorrir com ternuras de outros tempos, que nos sabem sempre bem ouvir, dedico este primeiro texto de outros tantos que hão-de vir.